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CLICHÊS OU A INACABÁVEL ENCICLOPÉDIA DA ESTUPIDEZ HUMANA / MARIA MORTATTI

Do clichê tipográfico – palavra de origem francesa designando chapa matriz de impressão tipográfica que pode ser reproduzida indefinidamente – decorre a acepção de clichê, na linguagem oral e escrita, como chavão, lugar comum, frases ou ideias não originais, que se trivializam pela repetição de forma automática e abusiva. Podem se tornar eficientes para a comunicação em alguns contextos, como na publicidade, em máximas e provérbios, ou vazias de sentido, como na linguagem literária, quando, ressalvando-se o uso em paródias ou pastiches, soluções estilísticas originais de um grande escritor são repetidas por seus epígonos, também de forma automática e abusiva, por modismo ou admiração, muitas vezes sem saberem de sua origem e contexto. Nestes tempos de robôs treinados para copiar/plagiar textos disponíveis on-line, os clichês literários, além de abundantes, vêm se tornando cada vez mais naturalizados.

Reflexões sobre o assunto não são novas e nem sempre tiveram sentido pejorativo. Desde a Antiguidade clássica – quando os “topoi” (tópicos) eram a matéria dos argumentos e os lugares-comuns dos oradores em seus discursos – até o século XVIII, fórmulas estereotipadas de pensar e de dizer, imitando os clássicos – que deviam ser repetidas, inclusive constando de manuais escolares de composição – passaram depois a ser consideradas clichês. O jornalista e filólogo brasileiro João Ribeiro (1860 – 1934) publicou em 1908 seu estudo Frases feitas – Estudo conjetural de locuções, ditados e provérbios. O escritor francês Gustave Flaubert (1821 – 1880) dedicou muitos anos de sua vida a combater seu grande inimigo, a estupidez humana. Coletou clichês da sociedade francesa de sua época e os reuniu no inacabado Le dictionnaire des idées reçues ou Catalogue des opinions chic (Dicionário de ideias feitas ou Catálogo de ideias chiques) – que teria como título ou subtítulo “Enciclopédia da estupidez humana” – , publicado postumamente em 1911, como apêndice a outra obra inacabada, Bouvard et Pécuchet (1881) – e, em 1913, por Louis Conard, Libraire-Éditeur. A edição corrigida e ampliada do dicionário, com novos verbetes descobertos entre as anotações de Flaubert, foi lançada na França em 1950. No Brasil, foi traduzido pelo escritor, jornalista e editor Fernando Sabino (1923 – 2004) no livro Lugares-comuns, de 1952, dedicado ao escritor Hélio Pellegrino (1924 – 1988) e publicado na coleção Os Cadernos de Cultura, do Ministério da Educação e Saúde, editado pelo Departamento de Imprensa Nacional. Posteriormente, passou a ser editado pela Record, com acréscimo de um subtítulo irreverente: "As bobagens que a gente diz: eu, você e Flaubert". A tradução é precedida por um ensaio e informações sobre o dicionário. No ensaio, Sabino problematiza conceitos e funções históricas do lugar comum, concluindo: “Escrever bem não é repetir o que já foi bem escrito: é revalorizar os meios de expressão, juntar ou separar palavras para fazê-las reagir, servir-se do que já foi dito para dizer pela primeira vez. É preciso reabilitar as ideias cuja expressão a frase feita consumiu. Ter a coragem de surpreender como a um inimigo o lugar-comum e violentá-lo, libertando a verdade que possa encerrar. Usar esta verdade na descoberta de outras que um dia venham a ser lugar-comum.”

Sem dúvida, esses conselhos – que nada têm de "bobagens" – são realizados na obra de Sabino e de tantos grandes escritores que conseguem surpreender o lugar comum, violentá-lo e libertar suas verdades, dizendo-as pela primeira vez. Essa é também uma diuturna luta minha – possivelmente nem sempre bem-sucedida – e deveria ser a luta de todo escritor. Quantos epígonos, porém – especialmente nestes tempos de tanto conteúdo acessível on-line –, reproduzem enésimas vezes em suas chiclerias tantos lugares comuns, como “verdades acacianas”, mesmo que não tenham lido O primo Basílio, de Eça de Queirós”, nem tomado conhecimento do caricato Conselheiro Acácio, personagem metido a intelectual que agradava a todos com suas frases e citações proferidas em tom grave, sentencioso, pomposo, solene, mas vazias de sentido e repetidas indefinidamente, como amontoado de obviedades e chavões – à semelhança de chaves mestras usadas para abrir todo tipo de fechaduras e que também possibilitam furtos. Assim os clichês, como chiclé mascado – em anagrama mal disfarçado de chique –, vão grudando na língua de escritores desavisados e mal informados, que, acreditando serem os primeiros a dizer, violentam os ouvidos de leitores, contribuindo, muitas vezes de modo involuntário, para uma inacabável enciclopédia da estupidez... ou da ingenuidade humana, hoje ampliadas pelas artimanhas de robôs treinados para reproduzi-las indefinidamente.

Maria Mortatti – 30.10.2023