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POR QUE LER ITALO CALVINO? / MARIA MORTATTI

Para responder – de modo mais coerente – à pergunta-título deste texto, bastaria talvez apresentar cada um das centenas de trabalhos – romances, contos, ensaios, entrevistas, relatos de viagem, cartas, traduções, letras de canções, entre outros – que compõem a obra do escritor cubano-italiano Italo Calvino (15.10.1923 – 19.09.1985), considerando sua famosa afirmação sobre a irrelevância da biografia do autor, em carta de 1964, para Germana Pescio Bottino: “eu sou daqueles que creem, com Croce, que, de um autor, só as obras contam (quando contam, naturalmente). Por isso, dados biográficos não os dou – ou dou-os falsos – pelo menos, procuro sempre alterá-los de umas vezes para outras. Pergunte-me, porém, o que quer saber e dir-lho-ei. Mas nunca direi a verdade, disso pode estar segura." Ou, com certo atrevimento, poderia comentar cada um de seus romances – lançados pela Editora Einaudi, de que ele foi colaborador –, desde o primeiro, O caminho dos ninhos de aranha (1947), e ressaltando os mais conhecidos no Brasil – O visconde partido ao meio (1952), O barão nas árvores (1957), O cavaleiro inexistente (1959), As cidades invisíveis (1972), Se um viajante numa noite de inverno (1979), Palomar (1983), até os lançamentos de traduções brasileiras mais recentes. E neles destacaria as propriedades literárias – “Leveza”, “Rapidez”, “Exatidão”, “Visibilidade”, “Multiplicidade” e “Consistência” –, que Calvino apresenta em Seis propostas para o próximo milênio – lições americanas (1988, póstuma), reunião de palestras que iria proferir na Universidade de Harvard, mas faleceu em decorrência de derrame cerebral, antes de escrever a última – e de proferi-las. Ou, ainda, bastaria reproduzir aqui as 14 “propostas de definição” de clássico, apresentadas em seu livro Por que ler os clássicos, coletânea de ensaios, críticas, prefácios e resenhas “sobre ‘seus’ clássicos: os escritores, os poetas, os cientistas que mais contaram para ele em diversos períodos de sua vida”, como informa sua esposa, a tradutora argentina Esther Calvino (Chichita), em nota à edição italiana de 1991, publicada, portanto, após a morte do escritor, como ele mesmo desejava. 

Em todo caso, ainda ficaria uma pergunta: por que escrever sobre Italo Calvino, se eu e tantos outros já o fizemos, especialmente neste ano em que se comemora o centenário de seu nascimento? E se ele mesmo afirmou: “de um autor, só as obras contam”? Entre perguntas e respostas presunçosas ou tautológicas, o melhor a fazer nesse caso é dar a palavra a Calvino. Se clássicos são “aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ‘estou relendo...’”, "que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições de apreciá-los”, “que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual”; “um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”; “aqueles livros que chegam até nós trazendo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram”; “que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato, mais se revelam novos, inesperados, inéditos”, " 'seu' clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele”; e se “os clássicos servem para entender quem somos e aonde chegamos”, então, considerando toda sua obra, inclusive Por que ler os clássicos, Calvino é, naturalmente, um clássico.

Então, por que ler (e reler) Calvino neste milênio... e nos próximos? Se nenhum desses argumentos for suficiente, resta a justificativa mais simples e certeira de Calvino: “A única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos. E se alguém objetar que não vale a pena tanto esforço, citarei Cioran [...] ‘Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta. ‘Para que lhe servirá?’, perguntaram-lhe. ‘Para aprender esta ária antes de morrer.’" E por que, afinal, escrever sobre Calvino? Bem, essa resposta é até mais simples: escrever este texto me proporcionou momentos adoráveis de intimidade com o autor, relendo seus clássicos, que nunca terminam de me dizer aquilo que tinham para dizer, desde o primeiro que li, Se numa noite de inverno um viajante (Editora Vega; Lisboa, 198?), aceitando o convite para tomar a posição mais cômoda e participar, como protagonista, do jogo narrativo: “Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de todos os outros pensamentos. (...) Di-lo já aos outros: ‘Não quero ser incomodado (...) Estou a começar a ler o novo romance de Italo Calvino’”.

Maria Mortatti – 15.10.2023