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MEMÓRIAS DE ESTRICNINA – CARTA DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO PARA FERNANDO PESSOA / JOÃO SCORTECCI

Memórias de estricnina! O poeta e contista português Mário de Sá-Carneiro (1890 – 1916) foi um dos grandes expoentes do modernismo português e um dos mais reputados membros da Geração d’Orpheu (revista literária Orpheu, 1915). Suicidou-se (no Hotel de Nice, em Paris), aos 25 anos de idade, no dia 26 de abril de 1916, utilizando-se de cinco frascos de arseniato de estricnina. Sua carta de despedida – onde revela suas razões – foi escrita para o amigo Fernando Pessoa, datada de 31 de março de 1916: “A menos de um milagre na próxima segunda-feira, 3 (ou mesmo na véspera), o seu Mário de Sá-Carneiro tomará uma forte dose de estricnina e desaparecerá deste mundo. É assim tal e qual – mas custa-me tanto a escrever esta carta pelo ridículo que sempre encontrei nas 'cartas de despedida' ... Não vale a pena lastimar-me, meu querido Fernando: afinal tenho o que quero: o que tanto sempre quis – e eu, em verdade, já não fazia nada por aqui... Já dera o que tinha a dar. Eu não me mato por coisa nenhuma: eu mato-me porque me coloquei pelas circunstâncias – ou melhor: fui colocado por elas, numa áurea temeridade – numa situação para a qual, a meus olhos, não há outra saída...” Mário de Sá Carneiro escreveu ainda versos sobre o seu funeral: "Quando eu morrer batam em latas,/Rompam aos saltos e aos pinotes,/Façam estalar no ar chicotes,/Chamem palhaços e acrobatas!/Que o meu caixão vá sobre um burro,/Ajaezado à andaluza, /A um morto nada se recusa,/E eu quero por força ir de burro!". Não há registro de que sua “última vontade” tenha sido atendida.

João Scortecci