“Vemos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar/ (...) Nada pode apagar/ O concerto dos gritos” são versos da célebre “Cantata da Paz”, da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (06.11.1919 – 02.07.2004). O poema foi escrito para a vigília em que ela e um grupo de católicos progressistas, reunidos na noite de 31 de dezembro de 1968, na igreja de São Domingos, em Lisboa, manifestavam-se pela paz e contra as guerras. O poema faz referência à bomba de Hiroshima, à guerra do Vietnã, à guerra colonial portuguesa na África – iniciada durante o regime ditatorial de António de Oliveira Salazar, em Portugal. Foi musicado e gravado, em 1970, pelo ex-padre Francisco Fanhais, tornando-se uma das canções de protesto mais conhecida em Portugal até a Revolução do Cravos, em 25 de abril de 1974, que encerrou a ditadura.
De formação aristocrática e católica, Sophia Andresen dirigiu movimentos universitários na Universidade de Lisboa – onde cursou, sem concluir, Filologia Clássica –, participou de círculos literários portugueses com escritores renomados, como Jorge de Sena, foi indicada à Assembleia Constituinte pelo Partido Socialista e foi a primeira poetisa portuguesa laureada com o Prêmio Camões (em 1999), além de outros prêmios e homenagens que recebeu.
Publicou dezenas de livros – também para crianças – de poesia, contos, peças de teatro, ensaios e traduções de clássicos da literatura inglesa, italiana, francesa, grega e teve sua poesia traduzida para italiano, inglês, alemão. Conforme críticos literários e estudiosos de sua obra, a poesia andreseniana é marcada pela influência clássica, tratando de forma enxuta, clara e com equilíbrio formal de temas clássicos, existenciais e políticos, como justiça, moral humanista, natureza, mar, memórias, amor.
Manteve também diálogo com escritores e culturas de outros países, entre os quais o Brasil, que visitou nos anos 1960. Viajou por alguns estados do País e se encantou com as belezas naturais, com o português brasileiro, com a cidade de Brasília e com poetas, como João Cabral de Mello Neto (que conhecera como diplomata em Sevilha) e Manuel Bandeira – aos quais dedicou poemas de seu livro Geografia, de 1967 –, Cecília Meireles – sobre a qual escreveu ensaio e poema –, Murilo Mendes.
Foi por meio da Antologia da poesia portuguesa contemporânea (Ohno-Kempf, 1982), organizada pelo poeta e escritor brasileiro Carlos Nejar, que conheci a poesia de Sophia Andresen. Entre os de 40 autores apresentados pelo organizador, estão 12 de seus poemas, recolhidos de livros publicados de 1944 e aos anos 1970. São poemas breves, sintéticos, de beleza contundente, como “Cante jondo”: “Numa noite sem lua o meu amor morreu/ Homens sem nome levaram pela rua/ Um corpo nu e morto que era o meu.” Continuou publicando até alguns anos antes de sua morte e, aos poucos, pude conhecer e me encantar com outros poemas que li em alguns de seus livros mais recentemente publicados por editoras brasileiras, como Coral e outros poemas (Companhia das Letras, 2018), com seleção do poeta Eucanaã Ferraz e em que se encontra um de meus poemas preferidos: “Para atravessar contigo o deserto do mundo”, de Livro Sexto, de 1962.
Depois de ver, ouvir e ler Sophia Andresen, não se pode ignorar o concerto poético que ela nos oferece. Nestes tempos de tantas outras guerras, tragédias humanitárias e povos destruídos, seu apelo pela paz e liberdade e a beleza de sua poesia continuam ecoando e nos convocando para com ela “atravessar o deserto do mundo/ Para enfrentarmos juntos o terror da morte/ Para ver a verdade para perder o medo.”
Maria Mortatti