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CAMILO CASTELO BRANCO E O AMOR: PERDIÇÃO E SALVAÇÃO / MARIA MORTATTI

Certos livros têm um misterioso poder de atração, antes, durante e depois da leitura. Há os inteiramente sedutores, que convidam à releitura. Há os que basta ler uma vez, pois cumpriram sua missão, deixando um ou outro aspecto gravado nas estantes da memória: o momento da leitura, uma frase, um verso, um enredo, um episódio, um protagonista, a capa, o título. 

De duas novelas do escritor português Camilo Castelo Branco (16.03.1825 – 1º.06.1890), ficaram-me principalmente os títulos: Amor de perdição e Amor de salvação. Gostei de lê-las durante o curso de Letras e, nos anos 1980, com meus alunos do ensino médio – na edição pela Série Bom Livro, da Ática. O foco eram, então, as caraterísticas do Ultrarromantismo português – amores idealizados e arrebatadores, sofrimento e melancolia – presentes nessas e na extensa obra desse prolífico e popular escritor, de estilo por vezes também satírico e bem-humorado – , talvez o primeiro a viver dos rendimentos de suas publicações – mais de duas centenas, alguns sob pseudônimo, entre romances, novelas, crônicas, poemas, comédias, ensaios, traduções, além dos inéditos que deixou; e aspectos de sua turbulenta vida: filho bastardo, órfão desde criança, leitor de clássicos portugueses e latinos, com personalidade irrequieta e apaixonada, marcada por amores tumultuados e proibidos, por prisão por adultério, por dificuldades financeiras e pela sífilis, causa da cegueira que, impedindo-o de ler e escrever e depois de esgotadas todas as tentativas de cura, levou-o a cometer suicídio, aos 65 anos de idade, com um tiro de revólver na têmpora direita, sentado em sua cadeira de balanço onde agonizou por algumas horas, assistido por Ana Plácido, sua antiga paixão e com quem finalmente se casara em 1885, ano em que também recebeu o título de 1º. Visconde de Correia Botelho.

Amor de perdição – Memórias de uma família, de 1862, é sua novela mais famosa e mais passionalmente romântica e inspirada em fatos de sua vida. Foi escrita em 15 dias, durante o período em que o autor esteve preso na Cadeia da Relação, na cidade do Porto, por crime de adultério com Ana Plácido, então casada e também presa pelo crime. Evocando Romeu e Julieta, de William Shakespeare, na novela de Camilo Castelo Branco, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, dois jovens de famílias rivais, são impedidos de se casarem. Simão mata Baltazar, o pretendente destinado a Teresa, que é enclausurada em um convento. Enquanto espera a decisão sobre sua pena, Simão é preso e conta com apenas com a fiel companhia de Mariana, que se apaixona platonicamente por ele. Ao final, Simão e Teresa, após enfrentarem obstáculos e sofrimentos, morrem por e de amor. Em Amor de salvação, de 1864, é narrada a história de Afonso de Teive e Teodora Palmira, prometidos um ao outro por suas mães. Com a morte da mãe de Teodora, ela é enviada para um convento e, apesar da promessa dos jovens de se casarem assim que possível, não se conforma com regras para as mulheres da época e se casa com o primo Eleutério. Afonso sofre, dividido entre o amor da prima Mafalda, rica e bondosa, que por ele se apaixona, e o de Teodora, que vivendo de “alma livre”, decide deixar o marido e ficar com Afonso. No final, porém, ao “amor de perdição” do desesperado Afonso por Teodora, tem-se o “amor de salvação” (financeira, sobretudo): ele se casa com Mafalda, e têm oito filhos. Nas palavras do autor: “Para o amor maldito, duzentas páginas; para o amor de salvação, as poucas restantes do livro. Volume que descrevesse um amor de bem-aventuranças terrenas seria uma fábula.”

Dos enredos que resumi, lembrava-me pouco. Tive de retomar e folhear os livros. E confesso que não me causaram impacto maior do que recordações de leituras distantes de clássicos de um grande escritor que fazem parte de minha formação literária e intelectual. O que ficou, de fato, foram os títulos, com sentidos que se renovam nas milhares de  páginas – mais de perdição que salvação – da história nada fabulosa minha vida, ora escondidos, ora escancarados, nos contraditórios e insondáveis mistérios das faces do amor, esse sentimento de que – como da morte – ninguém escapa.

Maria Mortatti – 22.10.2023