A poeta, escritora e pacifista francesa Germaine Kellerson (Périgueux, 1890 – Sarliac, 1978) nasceu e viveu da região de Périgord, no Sudoeste da França. Em esparsas informações disponíveis na Internet, seu nome é mencionado como filha do industrial e inventor Francisque Chaux, esposa do professor universitário Joseph Kellerson – com quem teve dois filhos, Robert e Francis –, humanista, “embaixadora da humanidade”. No contexto de instabilidade política da Terceira República Francesa (1870 – 1940) e nos períodos conturbados da Primeira Guerra Mundial, do entreguerras, da ascensão do nazismo e da Segunda Guerra Mundial, ela trabalhou intensamente em movimentos em defesa da paz, da liberdade, dos direitos das mulheres e do voto feminino e produziu a obra literária, fazendo sua voz ecoar para além dos limites regionais, assim como ilustres escritores franceses.
Entre as décadas de 1920 e 1950, fundou o Centro da Nova Europa e o Clube de pequenos Europeus de Paris; presidiu a Aliança Federalista de Mulheres pela Paz, a União Econômica e Federal Europeia e a Liga dos Estados-Unidos da Europa; participou, como representante francesa, do Congresso da Liga Internacional de Mulheres pela Paz, em Dublin, Irlanda, da primeira reunião da Liga de Ação Feminina pelo Sufrágio das Mulheres, em Paris, proferiu palestras literárias na Sociedade de Escritores Provinciais e se correspondeu com escritores, entre os quais o alemão Thomas Mann. Também publicou textos ou teve sua obra divulgada em jornais e revistas, como: La Voix des Femmes (A voz das Mulheres), jornal “feminista, pacifista, socialista e internacionalista”; L'Éveil des Peuples (O Despertar do Povo), jornal fundado em 1932 pelo católico progressista Marc Sangnier; L'Egyptienne (A Egípcia): “revista mensal: feminismo, sociologia, artes”; L'Intransigeant (O Intransigente), jornal fundado em 1880 – inicialmente de esquerda e, na década de 1920, de direita; e nos periódicos Hommes et Mondes (Homens e Mundos), L'Aube (Alvorecer), La Jeune République (A Jovem República), La Voie de la Paix (A Via da Paz).
É autora de seis livros de poesia e prosa – ilustrados e com várias edições, alguns encontrados em sebos ou digitalizados pela Sociedade FeniXX –, além de prefácios, ensaios e biografias. Seu livro de estreia literária, Inquiétudes – poèmes en prose (Inquietudes – poemas em prosa) (1929), com prefácio do escritor André Lamandé e litografias de Lucien de Maleville, foi publicado em Paris, pela Éditions La Caravelle, em edição de “grand luxe” e tiragem de 200 exemplares. Na década de 1930, foram publicados Le chant de la vie – roman (O Canto da Vida) (1935), por Corréa Éditeur, Paris, dedicado aos dois filhos da autora e aos futuros netos; e Rose-Pimpim – roman pour grandes fillettes (Romance para meninas grandes), pela Édition du Périgord Noir. Nas década de 1940, foram publicados Poèmes de la fin du jour (Poemas do fim de dia) (1943), com prefácio do poeta Charles Vildrac, pela editora Pierre Fanlac, de Périgueux, na série Le Cahiers de Province; e Ne pas se taire..., souvenirs des temps maudits (Não se cale..., lembranças de tempos malditos) (1946), pela Éditions du Périgord Noir, contendo relatos de testemunhos pessoais do período sombrio da guerra. Seu último livro, Le Journal de Jeantou (O diário de Jeantou) (1951), foi publicado pela Librairie Gedalge, Paris, com a dedicatória: “Em memória de Antoinette Lamandé, que era minha amiga e Mané do pequeno Jeantou”.
Nas palavras do historiador de Périgueux, Jean-Claude Bonnal, “É antes de tudo a poesia que permitirá a essa grande humanista transmitir ternura e generosidade”. Para o historiador, escritor e poeta Paul Mourousy, "Esta mulher cujo coração, sensibilidade e inteligência escolheram entre o egoísmo do artista e o sacrifício do apóstolo, trabalha noite e dia pela paz. Ela faz parte desta elite que transmite uma tocha da qual emergirá, queiramos ou não, o gênio e a felicidade dos futuros europeus”. Para o escritor André Lamandé, prefaciador de Inquiétudes, esse livro: "é como um tenro ninho de pombas feridas pelo amor" que “é um estado permanente, uma invasão do ser por inteiro – espírito e carne”. Nas palavras do poeta e escritor Charles Vildrac no prefácio de Poèmes de la fin du jour, “a poesia de Madame Germaine Kellerson é despojada de artifícios vãos e seduções da moda (...) é pela qualidade do timbre que ela nos toca.” Segundo comentários publicado nos jornais La République e La Femme de France (A mulher da França), O Canto da Vida é um “livro angustiante” em que, contra os perigos de seu tempo, a voz da autora “subiu tão pura e tão alta”.
Apesar desses registros e reconhecimentos de sua atuação e sua obra, Germaine Kellerson é ainda pouco conhecida na França e desconhecida no Brasil e em outros países. Foi-me apresentada pelo poeta e pesquisador franco-brasileiro Michel Thiollent, por meio dos livros Inquiétudes e Poèmes de la Fin de Jour, cuja leitura me instigou a buscar, reunir e fazer tradução livre de informações esparsas em sites da Internet e de títulos e trechos de livros disponíveis em sebos ou digitalizados em bibliotecas. Como a de tantas outras mulheres que se dedicaram à defesa do direito à voz, a produção literária de Germaine Kellerson ainda está por ser traduzida, estudada e avaliada no contexto de efervescência artística e intelectual de sua época e como representante não apenas da literatura regional de Périgord, mas também da escrita feminina francesa em meio às vozes masculinas das vanguardas europeias do início do século XX, como surrealismo, dadaísmo, cubismo/futurismo, modernismo.
Não se podem calar as inquietudes, o canto da vida, as lembranças de tempos sombrios, o amor como “estado permanente” também na busca da paz, que ecoam, ainda hoje, na voz de Germaine Kellerson, que assim deixa registrado em seu “Testament” poético e humano, no livro Poèmes de la Fin du Jour: “Lorsque je serai morte, reste fidèlement l’écho vivant de mon message : ‘Il n'est pas d'autre verité que celle de savoir aimer’.” (“Quando eu morrer, permaneça fielmente o eco vivo da minha mensagem: ‘Não há outra verdade senão a de saber amar’.”)
Maria Mortatti