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ANNE SEXTON – UMA POETA ESPIÃ / MARIA MORTATTI

“Uma mulher que escreve sente demais”, “Ela acha que pode alertar as estrelas/ é essencialmente uma espiã”; seu “ofício são as palavras” “abelhas enxameadas”; entrega-se “a coisas aflitas / tentando caçar amor e catar o que der”; “mulher assim não é mulher demais”, “é rejeitada”, “a morte não governa”: desse tipo, dessa espécie, mostra-se, em autorretrato, a poeta estadunidense Anne Sexton (09.11.1928 – 04.10.1974). 

Começou a escrever por recomendação de seu analista, quando, após diagnóstico de depressão pós-parto e tentativas de suicídio, iniciou tratamento em hospitais psiquiátricos, com internações recorrentes, até consumar o suicídio, com 45 anos de idade. Sua inovadora “poesia confessional” obteve rápidos reconhecimento e sucesso, ainda em vida. Foi agraciada com o Prêmio Pulitzer de 1967, pelo livro Live or die (Viver ou morrer) (1966), e ganhou popularidade com alguns de seus mais famosos poemas, entre os quais: “Said the poet to the analyst” (“Disse a poeta ao analista”); “The black art” (“Bruxaria”); “Housewife” (“Esposa da casa”); “Her kind” (“De sua espécie”); e Mercy Street (Rua da Misericórdia) – adaptado para ópera/peça de teatro. Até recentemente pouco conhecida no Brasil, sua obra está traduzida em mais de 30 idiomas e consta de antologias e currículos de ensino médio e universidades de vários países.

Nascida em Newton, Massachussets, EUA, de família protestante pouco rígida e financeiramente confortável, Anne Gray Sexton teve incipiente educação formal, chegando a cursar apenas um ano em curso superior, onde aprendeu “boas maneiras” e “a fazer o molho branco perfeito”. Casou-se em 1948 com Alfred Muller Sexton II e tiveram duas filhas, em 1953 e 1955. A “permissão” médica para escrever como terapia propiciou a libertação de seu talento de poeta. Passou a escrever em ritmo impressionante, publicando inicialmente em revistas literárias. Como autodidata, passou também a ler os clássicos da literatura universal, inscreveu-se em cursos de poesia, conheceu outros escritores, em especial Robert Lowell (1917 – 1977), considerado o pai da “poesia confessional”, com quem começou a estudar na Universidade de Boston, em 1958. Lá conheceu a poeta Sylvia Plath (1932 – 1963) – de quem se tornou amiga e também cometeu suicídio –, além de outros poetas que desenvolveram estilo literário confessional.  

A carreira literária de Anne Sexton se iniciou em 1960, com o livro To bedlam and part way back (Até o caos e a meio caminho da volta). Teve publicados, em vida, outros sete livros de poesia, entre os quais All my poetry (Toda minha poesia) (1962), Live or die (Viver ou morrer) (1966), Transformations (Transformações) (1971) – com adaptações sarcásticas de contos de fadas tradicionais – e The death notebooks (Cadernos da morte) (1974). Postumamente, foram publicados outros quatro livros de poemas e um de prosa. 

Na apresentação da antologia bilíngue Compaixão (trad. brasileira do original Mercies,  por Bruna Berber, Relicário, 2023), sua filha e executora literária, Linda Gray Sexton, assim a caracteriza: “uma poeta que fala com uma coragem extraordinária e que se aprofunda em assuntos que eram considerados inadmissíveis em sua época: traumas de infância e incesto; dependência de drogas e de álcool; loucura e depressão; masturbação e menstruação; casamento e adultério; maternidade, filhos e amizade; o desejo de viver e o desejo de morrer”. 

Críticos e estudiosos de sua obra, classificam-na como “poeta confessional”, “modernista tardia”, “imagista”, de estética audaciosa e “clareza incisiva”, artista performática, que costumava ler seus poemas em público, sempre iniciando com o popular “Her kind” – que deu nome a uma banda de rock, de que ela participava lendo sua poesia. 

Como prenunciara poeticamente, partiu “antes da velhice e da doença,/ transtornada, mas precisa,/ sabendo o melhor caminho”. Por seus inovadores estilo poético e abordagem de temas “tabus” no contexto histórico e social em que viveu, marcado pela Guerra Fria contra o comunismo e a ascensão do consumismo – o "American way of life" – nos EUA , contribuiu para mudanças radicais na poesia estadunidense e de língua inglesa, a partir de então. 

Meio bruxa, meio dona de casa insubmissa, meio rebelde política e social, Anne Sexton escreveu com ardor e fúria em busca da libertação do papel tradicional prescrito para as mulheres e ousou compor poesia confessional/pessoal. Uma mulher dessa espécie, “não é mulher demais”, “a morte não governa”. Por tantos anos, o talento e ofício dessa poeta espiã lidando com as palavras/"abelhas enxameadas" a ajudaram a enfrentar o transtorno mental e a retratar também aspectos sombrios da condição feminina. E sua poesia viva continua nos espiando, alertando as estrelas e nos fazendo sentir demais...

Maria Mortatti