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BEIJOS ROUBADOS DE CORA CORALINA E RACHEL DE QUEIROZ / JOÃO SCORTECCI

O dia em que tudo aconteceu. O beijo roubado de Anna Lins! Não foi lá nos Becos de Goiás e nem nas águas do Rio Vermelho. Foi quando Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas perdeu o medo e virou Cora Coralina. Foi no ano de 1983, na sede da União Brasileira dos Escritores – UBE, quando da entrega do Prêmio Intelectual do Ano – Troféu Juca Pato. Eu, pequenino; e ela, gigante! Curvei-me quase meio metro, para que ela pudesse me roubar um beijo de poeta. Poucas mulheres receberam o Troféu Juca Pato, outorgado pela entidade de escritores. Foi Cora Coralina – dos becos de Goiás – quem puxou a fila literária. Depois, vieram Lygia Fagundes Telles, Rachel de Queiróz, Renata Pallottini e Tatiana Belinky. Coube à escritora luso-brasileira Dalila Teles Veras lançar – contra tudo e todos – a candidatura da poeta goiana e, a duras penas, conseguir as 30 assinaturas obrigatórias, na época, para disputar o pleito. Foi um momento de ruptura importante na UBE, que fez história. Cometi o mesmo beijo – também roubado – no ano de 1992, na Rachel de Queiroz, conterrânea e amiga da Família Paula. Como meu avô paterno, João Batista de Paula, o Batista da Light, a escritora nasceu na cidade de Quixadá, no Ceará, e foi amiga de uma vida inteira. Quando soube meu nome, perguntou: “Você é neto do Batista da Light?” “Sou.” “O Batista era muito querido, estava sempre alegre e sorrindo", sentenciou ela. Rachel de Queiroz estava sentada – confortavelmente – numa poltrona na sala da diretoria da UBE, aguardando o início da cerimônia de entrega do Juca Pato. Curvei-me e a beijei, com todo o amor do mundo. Foi o nosso último e derradeiro encontro. Logo depois, Rachel adoeceu e faleceu, em 4 de novembro de 2003, na cidade do Rio de Janeiro. Beijos roubados são sempre assim: perigosos, eternos e inesquecíveis.

João Scortecci