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MAGDA SOARES, A DAMA DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA / MARIA MORTATTI

Magda Becker Soares (Belo Horizonte/MG, 07.09.1932 – 1º.01.2023) é uma das educadoras mais notáveis da história da educação e da alfabetização no Brasil. Foi professora titular emérita da Faculdade de Educação da UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais, era graduada em Letras, mestre, doutora e livre-docente em Educação. Atuou como professora em escolas primárias e secundárias, e, na UFMG, participou da criação da Faculdade de Educação (FaE), da qual foi também diretora, formou milhares de professores, orientou dezenas de teses de doutorado e dissertações de mestrado em Educação, e, em 1990, Ano Internacional da Alfabetização (Unesco), fundou o Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale) da FaE, do qual foi diretora até 1995 e onde continua atuando como colaboradora. 

Participou também da criação e foi coordenadora do Grupo de Trabalho “Alfabetização, leitura e escrita”, da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação e atuou como consultora ad hoc ou membro de instituições e órgãos nacionais e internacionais, como: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico; Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior; Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais; Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo; grupos de trabalho do Ministério da Educação, para avaliação de livros didáticos de língua portuguesa e cartilhas de alfabetização; conselhos editoriais de periódicos científicos nacionais; World Congress Committe da International Reading Association; Grupo Experts on Education Indicators, designado pela Unesco para avaliação e revisão dos documentos World Education Report – 1993 e 1995. Depois de se aposentar em 1999, continuou atuando como professora e pesquisadora, com destaque para o projeto sobre alfabetização e letramento que desenvolveu, desde 2007, como voluntária, com o Núcleo de Alfabetização e Letramento junto à rede municipal de educação de Lagoa Santa, na região metropolitana de Belo Horizonte. 

É autora de livros didáticos de língua portuguesa e de artigos e livros sobre alfabetização e letramento, que se tornaram clássicos e referências obrigatórias para professores, pesquisadores e gestores da educação, como o artigo “As muitas facetas da alfabetização” (1985) e os livros Linguagem e escola: uma perspectiva social (1986), Alfabetização no Brasil: o estado do conhecimento (1989/2001), Letramento: um tema em três gêneros (1998), Alfabetização: a questão dos métodos (2017); Alfaletrar: toda criança pode aprender a ler e a escrever (2020), no qual compartilha a base teórica e as experiências do projeto de alfabetização no município de Lagoa Santa. 

Por suas importantes contribuições para a educação brasileira, recebeu muitos prêmios e títulos, entre os quais: Ordem Nacional do Mérito Educativo, grau de Comendador, concedido pela Presidência da República do Brasil (2000); Presidente de Honra da ABAlf – Associação Brasileira de Alfabetização, em 2012; Prêmio Almirante Álvaro Alberto para a Ciência e Tecnologia (CNPq/MCTI), em 2015 – a primeira educadora a receber essa mais importante honraria nacional em ciência e tecnologia; 67o. Prêmio Jabuti – Educação e Pedagogia e Livro do ano, em 2017, pelo livro Alfabetização – A questão dos Métodos

Uma de suas contribuições mais conhecidas e citadas é a proposta de alfabetizar letrando, que busca superar a plurissecular questão dos métodos de alfabetização, não devendo ser confundido com mais um deles, como alerta a educadora: “(...) em sua dimensão pedagógica, isto é, em sua prática em contextos de ensino, a aprendizagem inicial da língua escrita, embora entendida e tratada como fenômeno multifacetado, deve ser desenvolvida em sua inteireza, como um todo, porque essa é a natureza real dos atos de ler e escrever, em que a complexa interação entre as práticas sociais da língua escrita e aquele que lê ou escreve pressupõe o exercício simultâneo de muitas e diferenciadas competências. É o que se tem denominado alfabetizar letrando.”

Magda Soares é mestra, referência e inspiração para mim e os de minha geração – e das seguintes – que se dedicam aos magistério e aos estudos sobre alfabetização e educação. Sou leitora de seus textos, desde os anos 1980: como professora do ensino 1º. e 2º. graus, utilizei a série Português Através de Textos; e, como mestranda em educação, o livro Linguagem e escola e o artigo “As muitas facetas da alfabetização”. Nos anos 1990, após o doutorado e o ingresso como docente e pesquisadora na Unesp – Universidade Estadual Paulista, a obra de referência Alfabetização no Brasil: o estado do conhecimento foi decisiva para minhas pesquisas em história da alfabetização no Brasil e a de meus orientandos, assim como seus livros sobre alfabetização e letramento publicados até hoje. Nossos encontros não foram muitos, mas lembro bem de cada um. Inesquecíveis. Os mais significativos aconteceram no concurso de livre-docência, em 1997, de cuja banca ela participou; e, mais recentemente, por meio virtual, no lançamento da 2ª. edição (2021) de meu livro Os sentidos da alfabetização: São Paulo – 1876/1994 – resultante daquela tese de livre-docência – que, desde a primeira edição, em 2000, conta com seu honroso e “profético” texto de apresentação. 

Nas comemorações dos seus primeiros 90 anos, em 2022, Magda Soares recebeu merecidas homenagens, especialmente de professores, alfabetizadores e pesquisadores – como no e-book Cartas para Magda, em que os organizadores reúnem cartas de amigos, colegas e alunos. Também inúmeras foram as homenagens quando de seu falecimento, em 2023, reafirmando a importância de seu legado que está intrinsicamente incorporado ao patrimônio educacional e cultural brasileiro e o princípio que norteou seu pensamento e suas ações: "A arma social de luta mais poderosa é o domínio da linguagem". 

Maria Mortatti - 27.08.2023

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[Texto extraído, com adaptações, do capítulo de minha autoria, “Paulo Freire e Magda Soares: inspirações para esperançar”, no e-book História(s) de alfabetização, leitura e escrita: concepções, práticas e materialidades (2022), organizado por  Katia Cardoso , Nanci Amâncio, Sílvia Pilegi Rodrigues  e Sandra Bertold e publicado pela Editora da Universidade Federal de Rondonópolis.]


 

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EMILIA FERREIRO E A REVOLUÇÃO CONCEITUAL NA ALFABETIZAÇÃO / MARIA MORTATTI

Emilia Ferreiro (Buenos Aires, 05.05.1937 – Cidade do México, 26.08.2023) marcou decisivamente a história da alfabetização no Brasil, na América Latina e em países europeus. Desde os anos 1980, não se pode mais pensar sobre alfabetização, de modo rigoroso, sem considerar as contribuições dessa psicóloga e psicolinguista, cujas opções políticas e teóricas a obrigaram a vários deslocamentos, até sua vinculação, a partir de 1979, como pesquisadora e professora, ao Centro de Investigações e Estudos Avançados do Instituto Politécnico Nacional do México. 

Em 1962, licenciou-se em Psicologia pela Universidade de Buenos Aires (UBA) e, em 1970, obteve o título de Doutor (PhD) pela Universidade de Genebra, na Suíça, sob a orientação do epistemólogo suíço Jean Piaget (1896 – 1980), com quem depois trabalhou como pesquisadora-assistente. Retornando a Buenos Aires, em 1971, publicou o livro Les relations temporelles dans le langage de l'enfant, com prefácio de Piaget, resultante da tese de doutorado, e iniciou pesquisas experimentais com crianças sobre aquisição da linguagem escrita, com a colaboração de Ana Teberosky ( – 2023) e muitos outros pesquisadores, como Ana Maria Kaufman, Delia Lerner, Alicia Lenzi. Depois de um período afastada da UBA e intercalando períodos de trabalho na Universidade de Montevidéu, Uruguai, com seu marido, o físico e epistemólogo Rolando García, após o golpe de Estado na Argentina de 1976, exilaram-se na Suíça. Ferreiro chegou a trabalhar na Universidade de Genebra, mas por dificuldades de permanência, em 1979 se mudaram para o México, onde passaram a morar e trabalhar. Ferreiro continuou desenvolvendo suas pesquisas sobre as dificuldades das crianças na aprendizagem da linguagem escrita e ampliando o grupo de pesquisadores envolvidos na Argentina, no Brasil, no México, na Venezuela e em países europeus, passando a publicar os resultados dessas pesquisas, em livros, capítulos e artigos. Em 1979, foi publicado no México o livro Los Sistemas de Escritura em el Desarrollo del Ninõ, com Ana Teberosky, que marca o início de publicações regulares de Ferreiro em vários idiomas, além do espanhol: português, inglês, italiano, francês. Entre suas principais publicações, estão: Nuevas Perspectivas Sobre los Procesos de Lectura y Escritura (1982), com Margarida Gómez Palácio, La alfabetización em proceso (1985), Los hijos del analfabetismo (Propuestas para la alfabetizacíon escolar em América Latina) (1989), Reflexões sobre alfabetização (1985), entre muitos outros. Recebeu vários títulos e homenagens na Argentina, Grécia e no Brasil, com destaque para a Ordem Nacional do Mérito Educativo, do governo brasileiro, em 2003.  

Los sistemas de escritura em el desarrollo del ninõ foi traduzido no Brasil, em 1985, com o título Psicogênese da língua escrita, pela Artmed, com várias edições até os dias atuais, como ocorreu com outros textos seus. Além da participação de Ferreiro em eventos ao vivo – chegando a lotar estádio de futebol – e por teleconferência, de colaboração com grupos de pesquisa e pesquisadores brasileiros, esse livro contribuiu para a proposição, divulgação e popularização entre nós do nome da pesquisadora – chamada por muitos de Emilia, apenas – dos resultados de suas pesquisas e da teoria que ficou conhecida como “construtivismo”. Movida pela necessidade de buscar as causas do fracasso das crianças (pobres, especialmente) em aprender a ler e escrever e se opondo ao que se pensava e se praticava até então a respeito da alfabetização, Ferreiro propôs o deslocamento do eixo das reflexões “adultocêntricas” sobre "como se ensina a ler e escrever" para o "como se aprende a lecto-escrita", centrando na criança, como sujeito ativo, o processo de construção do conhecimento sobre a leitura e a escrita, que "segue uma linha de evolução surpreendentemente regular, através de diversos meios culturais, de diversas situações educativas e de diversas línguas", numa relação direta entre ontogênese e filogênese”, caracterizando o que denominou "revolução conceitual". 

Em contexto histórico de reorganização da educação brasileira, decorrente da abertura política pós-ditadura militar (1964 – 1985), além de muitas outras iniciativas importantes, como programas de leitura e do livro didático, sua teoria e suas reflexões pioneiras impactaram positiva e definitivamente discursos, estudos, pesquisas, práticas e políticas públicas de alfabetização, no que denomino de "quarto momento crucial" na história da alfabetização no Brasil, ainda em curso. Embora não tenha sido a única proposição teórica relativamente à alfabetização apresentada nas últimas décadas, o "construtivismo" se tornou hegemônico e permanece atuante até os dias de hoje, incorporado a modos de pensar e fazer a alfabetização, é objeto de inúmeras pesquisas acadêmicas, fundamento de políticas públicas e programas governamentais, e, mesmo para os de novas gerações de educadores e estudantes que possivelmente nunca tenham lido seus livros e artigos, diretamente, mas têm acesso a alguns de seus textos e vídeos na Internet, conhecem bem palavras de Ferreiro, como estas: “Em alguns momentos da história faz falta uma revolução conceitual. Acreditamos ter chegado o momento de fazê-la a respeito da alfabetização.” “A minha contribuição foi encontrar uma explicação segundo a qual, por trás da mão que pega o lápis, dos olhos que olham, dos ouvidos que escutam, há uma criança que pensa”.

Maria Mortatti – 26.08.2023

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TRÊS QUARTETOS DO POETA VIETNAMITA HO CHI MINH / JOÃO SCORTECCI

O poeta e revolucionário vietnamita Ho Chi Minh (Kiem Lan, 1890 – Hanói, 1969) foi um dos principais responsáveis pela libertação do Vietnã do colonialismo francês e do imperialismo norte-americano, durante o século XX. Ho Chi Minh esteve no Brasil em 1911, após conseguir trabalho como cozinheiro em um navio francês. Depois de contrair uma doença misteriosa no navio, foi abandonado no porto do Rio de Janeiro para morrer em terra. No entanto, passou a residir no bairro de Santa Tereza e a trabalhar em um restaurante na Lapa. Morou nos Estados Unidos da América, na Inglaterra, na União Soviética e na China. Preso na China em 1942 – aos 52 anos de idade - escreveu mais de 100 quartetos – estrofe de quatro versos; quadra – em seu período como prisioneiro. Revolucionário de ideologia marxista-leninista liderou o movimento de independência de seu país, instaurando a República Democrática do Vietnã, em 1945 – presidida por ele até 1969 – e derrotando a França em 1954, marcando o fim da Primeira Guerra da Indochina – Guerra de Resistência Antifrancesa, 1946 – 1954. Foi também figura-chave na Segunda Guerra da Indochina – Guerra do Vietnã contra os Estados Unidos da América (1955 – 1975). Quartetos: 1) “diário da prisão” – “corpo na alta cela,/alma além chancela,/se almejas grandeza,/vá espírito, ascenda.” 2) “Lua Cheia” – “Não há vinho nem flores no catre,/noite sem açoite, o que nos resta?/Uns olham a lua pela janela,/e pela fresta a lua espia o vate.” 3) “Crepúsculo” – “O pássaro cansado pousa no arvoredo,/a nuvem cruza o firmamento, desolada,/a jovem camponesa moe seu milheto,/e na fornalha vermelha brilha uma brasa.” O poeta e revolucionário vietnamita Ho Chi Minh morreu de insuficiência cardíaca em sua casa em Hanói, no dia 2 de setembro de 1969, aos 79 anos de idade. Seu corpo – embalsamado – está atualmente em exibição em um mausoléu na Praça Ba Đinh, em Hanói. Em sua homenagem, após a conquista comunista do Sul, em 1975, Saigon – maior cidade e principal centro financeiro, corporativo e mercantil do Vietnã – foi rebatizada de Ho Chi Minh City.

João Scortecci

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A DÓCIL E O PERVERSO, POR FIÓDOR DOSTOIÉVSKI / MARIA MORTATTI

O escritor russo Fiódor Dostoiévski (11.11.1821 – 09.02.1881), cuja obra figura entre os monumentos da literatura universal, dispensa efemérides para ser lembrado, celebrado, lido e relido. Aclamado desde a publicação de seu primeiro romance, Gente pobre (1846), inserindo-se na tradição literária representada por outros grandes escritores seus contemporâneos, na Rússia czarista do século XIX, Dostoiévski transcende essa tradição, inaugurando o romance polifônico e fantástico realista. Em seus romances, novelas, contos, memórias – muitos deles escritos rapidamente, para saldar dívidas financeiras contraídas com o vício de jogador –, por meio de temas e personagens universais e atemporais, vasculhando cantos obscuros do ser humano, provoca um encontro com a beleza do desassossego e deixa marcas indeléveis nos que acolhem o desafio da leitura. 

Lembro-me bem do primeiro encontro com sua obra, há mais de quatro décadas, quando li Crime e Castigo, numa tradução portuguesa, por Adelino S. Rodrigues, de 1974, pela Editorial Minerva, Lisboa – comprada na paulistana Livraria Brasiliense. O desassossego foi se estendendo a outros de seus romances, em traduções brasileiras, que passaram a ocupar estantes de minha biblioteca e meu tempo de leitura, em circunstâncias por vezes inusitadas para a companhia desse russo: Noites brancas, durante a espera para um encontro romântico; A casa dos mortos, tomando sol na areia da praia durante férias de verão; Memórias do subsolo, numa das visitas à cidade natal; O jogador, num “dia dos pais”; O idiota, quando me sentia especialmente virtuosa; Os demônios e Os Irmãos Karamazov, em longo período de meditação e revisão de vida; e seus contos e novelas em intervalos da lida profissional... 

Pois foi num desses momentos que recentemente retomei a coletânea Contos reunidos (org. Fátima Bianchi, vários tradutores, Editora 34), com os 28 contos que Dostoiévski publicou entre 1846 e 1880. Entre eles, “Uma criatura dócil”, novela publicada originalmente no número de novembro de 1876 da revista Diário de um escritor, dirigida pelo autor. O enredo se baseia em notícia publicada naquele ano no jornal Golos (A Voz), de São Petersburgo, sobre o suicídio de uma jovem pobre e em desesperança quanto ao futuro, que se atirou do alto de um prédio abraçada a uma imagem da Virgem Maria. Na introdução da novela, o autor adverte: “Peço desculpas aos meus leitores por lhes oferecer desta vez apenas uma novela, em vez do Diário em sua forma habitual. Mas esta novela simplesmente me tomou a maior parte do mês. (...) Agora sobre a história em si. Intitulei-a 'fantástica', ainda que eu mesmo a considere realista no mais alto grau. Mas aqui de fato ocorre o fantástico, e justamente na própria forma da história, o que eu considero necessário esclarecer de antemão. Acontece que não se trata nem de um conto nem de memórias.”

A história fantástica realista é narrada por meio de monólogos do protagonista, o marido atormentado, buscando compreender o motivo do fracasso de seu “sistema” e justificar para si a culpa frente à irreparável morte da esposa, a criatura dócil e sem nome, vítima da perversidade dele. Esse protagonista também sem nome, com 41 anos de idade e dono de uma casa de penhores, casa-se com uma jovem de 16 anos, órfã e pobre, que vivia com tias tiranas e estava prometida a um comerciante rico. Embora a amasse, o penhorista se torna um marido perverso: concebe um sistema de severidade e silêncio para submetê-la, até que ela adivinhasse, compreendesse e caísse de joelhos a seus pés. Agradava-lhe ver a humilhação dela e a ideia da desigualdade entre ambos. Julgava que ele a tinha vencido e ela tinha sido vencida por ele. De início, a dócil se submeteu, mas foi aos poucos se inquietando, começam as brigas, ela se intromete nos negócios dele, sai sozinha apesar da proibição, busca descobrir segredos de seu passado, a vida conjugal acaba, ela se fecha em silêncio, adoece e, após períodos de melhora, apesar das tentativas do marido de reconquistá-la, atirando-se aos seus pés – “queria ser seu cachorrinho” – , ele já a tinha perdido. Ela comete suicídio, atirando-se da janela de seu quarto, agarrada à imagem da Virgem Maria. 

Publicada há 147 anos, "A criatura dócil" – "uma das mais vigorosas novelas de desespero da literatura mundial", segundo o escritor russo Leonid Grossman – compõe o projeto literário filosófico teológico humanista de Dostoiévski, que aspirava ao estudo do ser humano na sua essência, expressando amor e compaixão pelo sofrimento e humilhação do “homem sem importância”, tomando como inspiração fatos do cotidiano, fundindo fantasia e realidade e criando, na prosa literária, a polifonia – várias vozes, além da do narrador, conceito formulado pelo teórico russo Mikhail Bakhtin – , que influenciou gerações seguintes de grandes escritores. Aclamado e estudado nos campos da literatura, filosofia, psicologia, psicanálise, entre outros, Dostoiévski continua marcando com beleza e desassossego a mim e a todos os que acolhem o desafio da leitura de sua obra. Imortal.

Maria Mortatti – 25.08.2023 



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JOÃO CABRAL DE MELO NETO E NIETZSCHE, SEM RESSENTIMENTOS! / JOÃO SCORTECCI

Aceite-se! Nietzsche vai e volta e não para de “perigosamente” olhar-me no fígado. Sujeito “estranho” e “azedo”. Não sei se gosto dele. Deveria? Ele declina, escala, sobe, mastiga, cospe, arrasta e invade minhas fortes fraquezas. Minhas identidades! Mexe com as minhas parábolas fantasiosas, meus laços afetivos, minhas resistências inúteis, trágicas e fúteis. Estava lendo um – interessante – artigo sobre a “cultura do ressentimento” e, “de quebra”, sobre a importância do perdão nas relações humanas, quando Nietzsche (Friedrich Wilhelm Nietzsche, 1844 – 1900) entrou “de bicudo” na história, por meio da interpretação do articulista: “Você precisa entender a ‘gênese do ressentimento’, precisa ter estômago forte, abrir o seu corpo podre, que exala vingança, ódio e raiva (...) É nele – no corpo – que mora a moléstia e a enfermidade. (...) O ressentimento – aquele que não sabe perdoar – é uma das condições mais perigosas ao homem! (...) Reconheça a mágoa, não deixe que a raiva te defina.” Fui lendo, concordando, discordando, aceitando, questionando, isso e aquilo. Fui espelho, telhado de vidro, esponja, canga de jumento e até protagonista do “pesadelo” que é a natureza humana. Nietzsche é mesmo um alucinógeno de almas. "Mude a conversa! Mude!". Alguém soprou no meu ouvido, provavelmente possuído por forças sobrenaturais. "Quem fala?" Insisti. Silêncio. Um Severino do céu, talvez. Foi o que fiz: mudei-me de estação e sintonia. Fui à Internet, consultei efemérides, abri links de aniversários, escrevi versos e me vi - temporariamente – livre, curado do vampiro do Nietzsche. Encontrei, esperando-me, no cabeçalho da página, o poeta pernambucano João Cabral (João Cabral de Melo Neto, 1920 – 1999). Uma premonição? Talvez. Peguei de pronto – de alma lavada – o seu livro “Morte e Vida Severina”, sem ressentimentos. João Cabral não cansa, não mastiga, não cospe, não arrasta e nem invade minhas desgraças. Olha o que ele me disse, a título de apresentação, na abertura do seu livro: “O meu nome é Severino,/não tenho outro de pia./Como há muitos Severinos,/que é santo de romaria,/deram então de me chamar/Severino de Maria;/como há muitos Severinos/com mães chamadas Maria,/fiquei sendo o da Maria/do finado Zacarias.” Grande João! Sem ressentimentos!

João Scortecci

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DUAS HISTÓRIAS: ASTROJILDO PEREIRA, O PCB E O BRUXO MACHADO DE ASSIS / JOÃO SCORTECCI

Primeira história – O escritor e jornalista Astrojildo Pereira (Astrojildo Pereira Duarte Silva, 1890 – 1965), nasceu na cidade de Rio Bonito/RJ. Foi anarquista, comunista e um dos fundadores do PCB – Partido Comunista Brasileiro, eleito secretário-geral do Partido, em março de 1922. Mudou-se, ainda adolescente, para Niterói e aos 15 anos de idade abandonou os estudos – na 3ª. série do ginásio – com a justificativa que, ali, não lhe ensinavam o que gostaria de fato de aprender, de modo a se dedicar ao que ele mesmo apelidou de "autodidatismo arquiatabalhoado". Em 1908, trabalhou como operário gráfico e no Ministério da Agricultura. Em 1911, fez uma viagem à Europa Ocidental, onde teve contato com os ideais anarquistas. Entre 1919 e 1921, afastou-se do anarquismo e se aproximou dos ideais comunistas. Em 1913, promoveu o II Congresso Operário Brasileiro, realizado entre 8 e 13 de setembro, na sede da COB – Confederação Operária Brasileira, na Rua dos Andradas, n. 87, no Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Em 1918, participou da frustrada insurreição anarquista, no Rio de Janeiro, evento inspirado na Revolução Russa, com o propósito principal de derrubar o governo central brasileiro, foi preso e solto, no ano seguinte. Em 1927, representando o PCB, entrou em contato com o militar e político comunista Luís Carlos Prestes (1898 – 1990), então exilado na Bolívia, ocasião em que lhe passou farta literatura marxista. Em 1928, durante o VI Congresso da Internacional Comunista, Astrojildo Pereira foi eleito para o seu Comitê Executivo. Viveu na Rússia entre 1929 e 1930, retornando ao Brasil com a missão de "proletarizar" o PCB. Em novembro de 1930, foi afastado da Secretaria Geral do Partido. Em 1931, pediu desfiliação do PCB e passou a se dedicar à profissão de jornalista e crítico literário.  Retornou ao PCB em 1945, passando a colaborar com as publicações do Partido. Após o golpe militar de 1964, foi preso por três meses, até janeiro de 1965. 

Segunda história – Em 1908, quando da morte do escritor e Acadêmico Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis, 1839 – 1908), por quem Astrojildo Pereira tinha fascínio e admiração, um acontecimento inusitado, que permaneceu incógnito durante muitos anos, marcou profundamente sua vida. Quando soube do agravamento da saúde do “Bruxo do Cosme Velho– apelido dado pelo crítico literário gaúcho Moysés Vellinho (1902 – 1980) e popularizado pelo poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987), no poema “Ao bruxo, com amor” (1958) –, Astrojildo largou o que estava fazendo e rumou para a casa do escritor, no bairro do Cosme Velho. Tinha, na época, 17 anos de idade. Bateu à porta e entrou, sem ser anunciado. Escritores e amigos de Machado, reunidos, aguardavam pela sua morte. Astrojildo, então, entrou no quarto onde estava acamado Machado de Assis e segurou sua mão. E, ali, aos olhos de todos, despediu-se de seu ídolo. Tal episódio fez Astrojildo Pereira, no dia seguinte, escrever o artigo "A última visita", refletindo sobre o falecimento do escritor. Tal episódio só foi revelado, anos depois, pelo próprio Astrojildo Pereira, quando assumiu publicamente que aquele garoto misterioso era ele. O acontecimento o marcou profundamente, levando-o, mais tarde, em 1959, a escrever e publicar o livro “Machado de Assis: ensaios e apontamentos avulsos.” Publicou, em vida, ainda, mais quatro livros: “URSS, Itália, Brasil” (1935), “Interpretações” (1944), “Formação do PCB” (1962) e “Crítica impura” (1963). Astrojildo Pereira faleceu na cidade do Rio de Janeiro, em 20 de novembro de 1965, aos 75 anos de idade.

João Scortecci
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LAUTRÉAMONT, "OS CANTOS DE MALDOROR" E A "ESCRITA DA CRUELDADE” / MARIA MORTATTI

Para Joaquim Brasil Fontes Junior (in memoriam)

Pouco ainda se sabe... – mais ou menos assim começa a maioria dos textos com informações, estudos, resenhas, comentários sobre vida e obra do poeta uruguaio-francês Isidore Lucien Ducasse (04.04.1846 – 24.11.1870), conhecido como Conde de Lautréamont, autor do poema em prosa Les chants de Maldoror (Os cantos de Maldoror), de dois livretos Poésies I e Poésies II e de correspondência publicada sob o título de Lettres

Com poucas variações, nem todas confirmadas e muitas contestadas, sabe-se que Isidore Ducasse nasceu na cidade de Montevideo, Uruguai, na época em que estava sitiada por exércitos a serviço do ditador argentino D. Juan Manuel Rosas, que apoiava Manuel Oribe, contra Fructuoso Rivera. Era filho de François Ducasse – natural de Tarbes, no Altos Pirineus franceses, e escrivão-chanceler do Consulado Geral da França em Montevidéu – e de Jacquette Célestine Davezac, nascida perto de Tarbes, que morreu em 9 de dezembro de 1847 em circunstâncias misteriosas. Com 13 anos e meio de idade, Isidore Ducasse foi para Tarbes, estudou no Liceu Imperial, depois teve aulas na cidade de Pau e se tornou amigo de Georges Duzet, filho de seu tutor. Ao término dos estudos, visitou o Uruguai, retornou à França, estabeleceu-se em Paris e passou a morar em hotéis elegantes. Morreu no quarto do hotel Faubourg-Montmartre, com 24 anos de idade, em circunstâncias não informadas – provavelmente vítima de tuberculose, segundo seus biógrafos –, quando Paris estava sitiada pelos exércitos prussianos. Foi sepultado no mesmo dia, provavelmente em vala comum, no antigo cemitério do Norte, hoje recoberto por um imóvel. O único retrato mais confiável do poeta – em um foto-cartão de visita possivelmente feito em Tarbes em 1867 – foi encontrado em 1977, com descendentes de Georges Duzet, por Jean-Jacques Lefrère, biógrafo do poeta. Até então, havia apenas retratos imaginários, como os assinados por Félix Valloton, em 1896, e por Salvador Dalí, no início do século XX. 

A publicação de sua obra mais famosa, o poema em prosa Les chants de Maldoror, composto de seis cantos com 60 estrofes não numeradas, foi iniciada em agosto de 1868, com a impressão, na França, de um livreto contendo apenas o “Canto I” e assinado por três asteriscos, sem nome do autor. Em 1869, também em publicação anônima, foi impresso na Bélgica, mas não distribuído. Nesse país, em agosto de 1869, foi impressa a obra completa, com os seis cantos, assinada com o pseudônimo Conde de Lautréamont, sem referência ao editor e que também não pôde ser comercializada durante sua vida, porque, segundo alguns críticos, os editores temiam processos jurídicos por imoralidade, como o então recentemente ocorrido contra Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Ducasse não conheceu o sucesso em vida, mas, após sua morte, começou a ser descoberto e admirado. Em 1870, os livretos Poésies I e Poésies II foram editados em Paris e assinados por Isidore Ducasse. Em 1890, seus livros foram reeditados, receberam críticas favoráveis, foram conquistando admiração de leitores, o autor foi redescoberto e admirado pelos surrealistas, como André Breton e Salvador Dalí, inspirou vanguardas artísticas do século XX e continua causando admiração e perplexidade, com sua literatura marcada pela “mistura impura de gêneros” – lírico, épico e dramático –, em diálogo com “toda a herança literária do Ocidente, de Homero até os contemporâneos do poeta uruguaio, passando por Dante e Mílton, sem falar na mídia jornalística (que nascia naquele momento) e em toda a ciência da época – medicina, física, história natural – às vezes colhida em manuais de divulgação”, nas palavras do professor, ensaísta e tradutor Joaquim Brasil Fontes.

Em Les chants de Maldoror, que o autor classifica como “incandescente”, o personagem principal, Maldoror – palavra cuja origem permanece misteriosa, mas provavelmente deriva da junção de “mal” e “horror”, em espanhol – é uma terrível criatura esquelética, armada com um estilete e inimiga do Criador, que dedica sua vida ao mal e cuja violência de palavras e de ações, fantasias cruéis e ameaças ao leitor evocam o Marquês de Sade e a “literatura do mal”. A crueldade do personagem e os mistérios sobre a vida do autor fizeram proliferarem histórias sobre ele na França e no Uruguai, que se tornaram lendas sobre um Conde de Lautréamont sobrenatural e maldito, inventadas de certo modo por ele mesmo, que escreveu em Os cantos de Maldoror: "Meu aniquilamento será completo" e em Poesias: "Não deixarei memórias", contribuindo para enigmas persistentes, apesar das biografias sobre ele escritas no século XX, como lembra a professora e crítica literária Leyla Perrone-Moysés. Esse escritor maldito, com uma obra hermética e fecunda, continua suscitando especulações, estudos e pesquisas. 

No Brasil, a primeira tradução de Os cantos de Maldoror é a do poeta, crítico e tradutor Claudio Jorge Willer (1940 – 2023), publicada em 1970, pela Vertente, com 2a. edição pela Max Limonad, em 1986. Em 1997, Willer publicou a obra completa de Lautréamont, pela Iluminuras, com 4ª. edição em 2014. Em 2017, foi lançada a tradução de Os cantos de Maldoror (Editora da Unicamp), pelo professor, ensaísta e tradutor Joaquim Brasil Fontes Júnior (1939 – 2019), que, além de obras autorais, traduziu a poesia de Safos de Lebos, Mallarmé, Eurípides, Sêneca, Racine e Baudelaire. Conquistou o 3o. lugar do Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, de 1992, com o ensaio Eros, tecelão de mitos, e o Prêmio Jabuti de 2008, com a tradução de Hipólito e Fedra: três tragédias. Joaquim foi meu orientador de mestrado em Educação na Universidade Estadual de Campinas, nos anos 1980. Em 2017, dois anos antes de ele falecer, perguntei-lhe se era ele o autor do parecer anônimo que recomendou a publicação, pela Editora da Unicamp, em 1991, de meu livro Em sobressaltos: formação de professora (3a. ed. em 2019, pela Oficina Universitária). O estilo e o conteúdo do parecer – um belo ensaio sobre o livro –pareciam ter sido escritos por algum erudito conhecedor de literatura clássica, cujo nome por décadas eu tentava, em vão, descobrir, pois gostaria de usar como prefácio à 3a. edição. Joaquim não pôde aceitar o convite e justificou, com suas inesquecíveis delicadeza e generosidade: estava envolvido outros projetos criativos.  Contou-me, entusiasmado, sobre suas então recentes publicações – o enigmático Nigredo: estudos de morte e dulia (Cultura e Barbárie, 2017) e a tradução de Os cantos de Maldoror. E me presenteou com exemplares dos livros autografados e uma poética, corajosa e enigmática constatação: “traduzir Lautréamont é entrar no coração da escrita da crueldade”.

Maria Mortatti - 23.08.2023 

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EMÍLIO MOURA: “VIVER NÃO DÓI. O QUE DÓI É A VIDA QUE NÃO SE VIVE.” / JOÃO SCORTECCI

O poeta modernista Emílio Moura (Emílio Guimarães Moura, 1902 – 1971) nasceu em Dores do Indaiá, pequena cidade do centro-oeste mineiro. São também dessa cidade: o professor, jurista e político Francisco Campos (1891 – 1968), responsável pela reforma do ensino secundário de 1931, pela redação da Constituição brasileira de 1937 e do Ato Institucional n.1, resultante do golpe militar de 1964; e o escritor, sociólogo e cientista político Bolívar Lamounier, primeiro diretor-presidente do IDESP - Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo. Emílio Moura e outros intelectuais mineiros – entre eles, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Martins de Almeida, João Alphonsus, Cyro dos Anjos, Aníbal Machado, Abgar Renault, Milton Campos e Gustavo Capanema – participaram ativamente do chamado “modernismo mineiro”, na década de 1920. Moura foi redator de “Cadernos literários” dos periódicos Diário de Minas, Estado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais, professor universitário e um dos fundadores da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais, em 1945, onde lecionou e da qual foi o primeiro diretor. Em 1924, com Carlos Drummond de Andrade, Gregoriano Canedo e Martins de Almeida, fundou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista – a primeira de Minas Gerais e a terceira do Brasil – que teve apenas três edições: em julho e agosto de 1925 e janeiro de 1926. Foram colaboradores da publicação: Manuel Bandeira, Ronald de Carvalho, Mário de Andrade, João Alphonsus, Abgar Renault e Pedro Nava. Quando Drummond soube de sua morte, em 28 de setembro de 1971, assim escreveu como despedida ao amigo: “Corredor ou caverna ou túnel ou presídio, não importa. Uma luz violeta vai seguir-me: a saudade de Emílio Moura". Em 1970, Emílio Moura obteve o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro, com Itinerário poético, coletânea de todos os seus livros, considerada por ele sua obra definitiva. Lá está um de seus célebres poemas, “Renúncia”: “Se eu cheguei a esta renúncia total, foi porque o meu sofrimento me transfigurou sem que eu o percebesse./Aqui estou, tímido e humilde./Parece que aqui estou há séculos./Meus olhos já não compreendem outra realidade./ A realidade que amei dorme na sombra.”

João Scortecci

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IMPRESSÃO OFFSET – QUANDO O ACASO INVENTA ENGENHOCAS / JOÃO SCORTECCI

A lista de invenções – frutos do acaso – é grande. Acidentes acontecem! Descuidos, enganos e movimentos não planejados acabam – vez por outra – revelando ideias incríveis, que proporcionaram grandes descobertas para a humanidade. A lista é imensa. Alguns exemplos: borracha vulcanizada, insulina, cookies de chocolate, Super Bonder, Raio X, LSD, penicilina, Teflon, Viagra, picolé, Sacarina, Velcro, Coca-Cola, micro-ondas, vidro blindado, vaselina, palito de fósforo, batata chips, dinamite, marca-passo, filme plástico e, no mundo gráfico, impressora offset. Esta descoberta – ao acaso – coube ao empresário norte-americano Ira Washington Rubel (1860 – 1908), proprietário da fabricante de papel Ira Washington Rubel, de Nutley, New Jersey, USA. Entre os anos de 1903 e 1904, a empresa desenvolveu o primeiro sistema offset litográfico para impressão em papel. A inspiração foi um acidente de “esquecimento”. Ao operar sua impressora litográfica, Ira Rubel percebeu que, se não inserisse o papel na máquina, a placa de pedra acabava transferindo a imagem para o cilindro de impressão de borracha. Quando, então, colocava o papel na máquina, a imagem era impressa dos dois lados do papel: uma imagem era obtida da placa de pedra, e outra, do cilindro de impressão de borracha. Percebeu, ainda, que a imagem impressa pelo lado da borracha – macia e de boa qualidade – era muito mais nítida. A primeira impressora offset – de impressão indireta com base em cobertura de borracha – criada por Ira Rubel foi operada durante um ano, quando, então, foi vendida para a Union Lithographic Company, por 5 mil dólares. O equipamento entrou em operação somente no ano de 1907, depois de ter sobrevivido a um terremoto em São Francisco, em 1906, e, também, a um incêndio nas proximidades do cais de Oakland, em 1907. Já disse: acidentes acontecem! A engenhoca criada por Ira Rubel possibilitava imprimir três mil cópias em uma hora, superando tudo o que, até então, existia nas artes gráficas. Em menos de 50 anos, a impressão offset substituiu as tecnologias de impressão tipográfica e se tornou o processo de impressão mais comum em todo o mundo. A impressora offset original de Ira Washington Rubel está preservada no Smithsonian Institution – maior complexo de museus, educação e pesquisa do mundo – em Washington, DC. 

João Scortecci


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ZÉ BELINDO, ZIRALDO E O PANTONE 448 C / JOÃO SCORTECCI

Zé Belindo era baixinho e feio de doer. Nasceu no município mineiro de Extrema, quase na divisa com o estado de São Paulo. “Eu sou paulista pelo amor”, dizia sempre. Zé Belindo – de pai desconhecido e mãe “solteira” – jurava que havia sido “feito” numa noite “licantropófaga”, depois de uma festa do pijama, na cidade de Bragança Paulista, conhecida como "a terra da linguiça". Coisa de mineiro! Zé Belindo era impressor gráfico de máquina offset, e o seu apelido era Pantone 448 C ou Marronzinho. Quando o conheci, no início dos anos 1990, tive o cuidado de olhar, desconfiado, na escala Pantone, qual era a cor 448 C. É descrita como marrom escuro e apelidada, informalmente, de a “cor mais feia do mundo". Meu pai, Luiz – isso no Ceará dos anos 1960 – chamava o marrom escuro de “cor de jumento novo”. Coisa de cearense! A Pantone 448 C é conhecida como uma cor desagradável. Em 2012, foi escolhida, na Austrália, como a cor a ser usada pela indústria do tabaco, nas embalagens de cigarros. O objetivo era encontrar uma cor repugnante, capaz de fazer fumantes desistirem do vício. Desde 2016, é também usada para embalagens de cigarros na França, Reino Unido, Irlanda, Israel, Noruega, Nova Zelândia, Eslovênia, Arábia Saudita, Uruguai, Tailândia, Cingapura, Turquia, Bélgica e Países Baixos. A escala Pantone não é, tecnicamente, um sistema de cores. Pesquisando na Internet, aprendi que a Pantone 448 C, quando convertida no padrão CMYK (Cyan, Magenta, Yellow e Black) corresponde, aproximadamente, às proporções: Ciano: 0%, Magenta: 12%, Amarelo: 40%, Preto: 70%. Marronzinho morreu jovem, de doença desconhecida. Até hoje, quando viajo para Bragança Paulista ou compro pão de linguiça na Padaria São Domingos, no bairro paulistano da Bela Vista, lembro do 448 C. Alegre, sorridente e feio de doer. No ano de 1984 – já editor de livros – ganhei de presente do meu irmão José Henrique, arquiteto, um exemplar do livro Flicts, do escritor e cartunista mineiro Ziraldo (Ziraldo Alves Pinto). Era um relançamento, pela editora Melhoramentos, da 1ª. edição de 1969 pela Editora Expressão e Cultura, do poeta, jornalista e acadêmico Ivan Junqueira (1934 – 2014). Flicts foi o primeiro livro infantil de Ziraldo, que, quatro anos antes, em 1980, havia iniciado a série histórica O Menino Maluquinho, um dos maiores fenômenos de vendas da literatura infantil brasileira. Conheci Ziraldo durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no ano de 1994, quando o evento ainda era realizado no Pavilhão do Parque do Ibirapuera. O personagem Flicts – representado por um tom terroso de bege – é uma cor “diferente”, que não consegue – por nada – encaixar-se no arco-íris, nas bandeiras e em lugar nenhum, e cujo merecido valor ninguém reconhece, a princípio. Seria o espírito do 448 C? Talvez. Desgostoso deste mundo injusto e cruel, Flicts – que “não tinha a força do Vermelho, não tinha a imensidão do Amarelo e nem a paz que tem o Azul” – decidiu sumir do mapa e foi morar na distante lua. Lá, percebe que ela, a lua, "de perto, de pertinho, é flicts", talvez um Pantone 448 C, marrom escuro ou até cor de jumento novo, um pouco de tudo. Coisa de gráfico.  

João Scortecci








 


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TRÁGICO MÊS DE AGOSTO PARA O LIVRO NO BRASIL / JOÃO SCORTECCI

O mês de agosto de 2023, provavelmente, ficará na história do livro impresso no Brasil. No dia 31 de julho de 2023, por meio de matéria publicada na Folha de S. Paulo, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, comandada por Renato Feder, comunicou que “SP abre mão de verba para material didático e usará só livro digital a partir do 6º ano” e que o governo estadual não aderiu ao Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) do Ministério da Educação (MEC) e utilizará material didático produzido pela Secretaria de Educação do Estado. A notícia caiu como uma bomba em toda a cadeia do livro. Alunos, educadores, escolas, editoras, gráficas, livrarias e papeleiros – por meio das respectivas entidades e associações – protestaram e, numa mobilização jamais vista, foram à luta. 

De acordo com a matéria, a gestão do Governador do Estado de São Paulo Tarcísio de Freitas estava abrindo mão de participar do PNLD, em que os livros didáticos são comprados com verbas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) do MEC e distribuídos gratuitamente às escola públicas. E ainda que, a partir de 2024, na rede de ensino paulista, a partir do 6º ano do ensino fundamental, seria utilizado apenas conteúdo didático digital, não mais o livro impresso.

A justificativa dada pelo Secretário Renato Feder foi que buscava manter "a coerência pedagógica", algo assim. Com a decisão, o governo paulista estava abrindo mão de um montante de cerca de R$ 120 milhões, referentes aos livros didáticos impressos que mais de 1,4 milhão de alunos deixarão de receber no próximo ano. Considerando todos os componentes curriculares, mais de 10 milhões de livros deixarão de ser impressos e distribuídos na rede estadual de ensino paulista.

Segue síntese dos acontecimentos em ordem cronológica, compilados de matérias da Folha de S. Paulo, que cobriu o "imbróglio" com propriedade e credibilidade. Cabe a observação: O Estado de São Paulo, Valor Econômico e outros órgãos da imprensa também foram pontuais e coerentes na cobertura do assunto.

Folha de S. Paulo – 2 de agosto de 2023: Renato Feder, Secretário da Educação do Estado de São Paulo, declarou que os livros didáticos “escolhidos” pelo MEC “perderam conteúdo, profundidade e estão superficiais” e que os alunos da rede pública paulista receberão 20 mil celulares, que foram “apreendidos” pela Receita Federal e doados ao governo paulista para esse fim.

Folha de S. Paulo – 2 de agosto de 2023: O deputado estadual Carlos Giannazi acionou o Ministério Público Estadual contra a decisão do governo paulista de utilizar somente livro digital a partir do 6º ano do ensino fundamental. No ofício endereçado ao Procurador-Geral de Justiça de São Paulo, Mário Sarrubbo, o deputado afirma que a decisão é "absurda", "vai na contramão de vários estudos" e "amplia o uso de tela na infância e adolescência – causador de muitos transtornos de ansiedade – e outros tantos pelo uso excessivo da tecnologia". A Secretaria da Educação respondeu que "permanece ativa no Programa Nacional do Livro e do Material Didático para a distribuição de livros literários."

Folha de S. Paulo – 3 de agosto de 2023: “Sem TV ou computador nas salas, professores têm que imprimir livro digital do governo de SP.” "A Secretaria reconhece que ainda trabalha para que todas as escolas tenham a infraestrutura necessária para usar esse material." A Folha teve acesso ao material, que consiste em uma série de slides com conteúdo das disciplinas e atividades a serem desenvolvidas em sala de aula. O material deveria ser apresentado aos alunos em aparelhos de TV, lousas digitais ou projetor. Como não há esses equipamentos em todas as salas de aula, os professores têm sido instruídos a imprimir os slides e entregar aos estudantes, para que possam acompanhar as aulas.

Folha de S. Paulo – 3 de agosto de 2023: “Ministério Público decide investigar decisão do governo Tarcísio de usar só livro digital nas escolas”. A promotora Fernanda Cassiano cobrou explicações da Secretaria da Educação e questionou o impacto negativo pedagógico e na saúde. Ao abrir o inquérito, a promotora questionou o fato de que, com essa decisão, o governo optou por abrir mão de R$ 120 milhões que receberia do PNLD. Essa é a primeira vez em que o estado de São Paulo fica fora do programa federal destinado a comprar livros didáticos para os estados com verbas do FNDE e distribui-los gratuitamente às escolas públicas. A promotora Fernanda Cassiano cobrou também uma resposta sobre os impactos pedagógicos da adoção de obras apenas digitais e sobre os prejuízos do uso excessivo de tecnologia na infância e na adolescência. Para especialistas, livros digitais não favorecem a retenção de conteúdos de ensino da mesma forma que os impressos, além de levar crianças e adolescentes a exposição ainda maior à tela.

Folha de S. Paulo – 4 de agosto de 2023: “Material didático do governo de SP é raso e pouco confiável, dizem autores de livros didáticos”, conforme relatório produzido pela Associação Brasileira dos Autores de Livros Educativos (Abrale). Essas e outras críticas contidas no relatório foram encaminhadas pela reportagem da Folha à Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, que respondeu que elas "estão descontextualizadas, são parciais e desconsideram que as aulas se relacionam com conteúdos que serão desenvolvidos em aulas futuras, inclusive de forma interdisciplinar, conforme práticas consagradas de planejamento escolar".

Folha de S. Paulo – 4 de agosto de 2023: “MEC vai cobrar governo Tarcísio sobre livros comprados e prevê confusão na rede de SP”. “Uso das obras já adquiridas é obrigatório, afirma pasta federal”. A decisão do governo de Tarcísio de Freitas não foi precedida de discussão com gestores e professores. Conforme a Folha apurou, é atribuída exclusivamente ao Secretário da Educação, Renato Feder, a decisão de abandonar o PNLD. Nem mesmo a Coordenadoria Pedagógica (Coped) vinculada a essa pasta foi acionada para realizar quaisquer estudos sobre o impacto, assim como o assunto não foi levado às escolas ou diretorias de ensino. O MEC vai oficiar o governo Tarcísio sobre essa obrigatoriedade, uma vez que as compras já foram realizadas no primeiro semestre de 2023. Foi somente em 20 de julho de 2023 que Renato Feder formalizou o abandono do programa para os anos finais do ensino fundamental. Técnicos da área de coordenação pedagógica das escolas estaduais paulistas dizem ter sido pegos de surpresa com o anúncio dessa decisão. Eles não foram consultados pelo Secretário da Educação sobre o impacto para a organização das escolas ou se o material produzido pela Secretaria é suficiente para contemplar todas as necessidades pedagógicas dos alunos. Um mês antes de Feder formalizar o abandono do programa, o coordenador da Coped, Renato Dias, reunira-se com diretores de ensino para orientar e elaborar um cronograma com as escolas para a escolha do material didático do PNLD 2024.

Folha de S. Paulo – 4 de agosto de 2023: “Ensino sem papel” – "Medida que abandona livro didático impresso em SP é abrupta e pouco transparente." Há muito açodamento e pouca transparência. Uma política que impactará 1,4 milhão de estudantes paulistas no ensino fundamental não deve ser implementada de forma abrupta e sem consulta pública. O governo estadual também não especifica qual será o processo de criação e avaliação do material didático digital que pretende utilizar. Segundo pesquisadores, nenhum país que faz amplo uso de recursos digitais abandonou completamente os livros impressos. A nova medida pode aprofundar desigualdades, dado que nem todas as escolas têm a mesma infraestrutura tecnológica e nem todos os alunos têm acesso aos dispositivos em casa – como ficou evidente durante a pandemia.

Folha de S. Paulo – 5 de agosto de 2023: “Crise de leitura – o que dizem os estudos que levaram a Suécia a retomar livros em papel.” Um dos países com melhores resultados educacionais no mundo, a Suécia se amparou em resultados de pesquisas científicas e em resultados de seus alunos em avaliações internacionais, para decidir retomar os livros didáticos em papel. Ao longo dos últimos 15 anos, aquele país vinha substituindo gradualmente o livro impresso por materiais digitais. A ministra das Escolas da Suécia, Lotta Edholm, em artigo publicado em dezembro de 2022 em um periódico sueco, reuniu conclusões de prejuízos com a ausência dos livros impressos. Um estudo recente da Unesco – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura alertou para os riscos do uso de celular em sala de aula e sobre a escassez de evidências de impacto positivo da tecnologia digital na educação. O Instituto Reúna – que colabora para a implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) – realizou pesquisas que abordam a experiência de 11 países que adotam livros didáticos digitais. O estudo foi motivado por evidências de que a grande maioria dos professores brasileiros têm no livro didático o principal recurso de trabalho. 

Folha de S. Paulo – 5 de agosto de 2023: “Após pressão, governo de SP recua e vai imprimir e encadernar livro digital para alunos”. Após repercussão negativa, o governador Tarcísio de Freitas voltou atrás na decisão de abandonar o livro impresso e informou que o governo paulista também vai oferecer material didático impresso para os alunos da rede estadual de ensino. Segundo Tarcísio, o governo tem mais de 6.000 aulas preparadas, e o material digital garantiria o acesso ao mesmo conteúdo em todas as regiões do estado. "Tudo vira polêmica, mas assim, eu acho que as coisas às vezes são mal comunicadas por nós mesmos."

Folha de S. Paulo – 16 de agosto de 2023: “Justiça dá liminar, e gestão Tarcísio desiste de abandonar programa de livros do MEC”. Juiz deu liminar proibindo saída do governo paulista do PNLD. Pouco depois, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo confirmou que permanecerá no programa no próximo ano. "A decisão de permanecer no programa no próximo ano se deu a partir da escuta e do diálogo com a sociedade, que resultou no entendimento de que mais esclarecimentos precisam ser prestados antes de que a mudança seja efetivada", afirmou a pasta chefiada por Renato Feder. A liminar foi concedida pelo juiz Antônio Augusto Galvão de França, em resposta a uma ação popular movida pela deputada federal Luciene Cavalcante, pelo deputado estadual Carlos Giannazi e pelo vereador Celso Giannazi. Em resposta ao Ministério Público Estadual, a Secretaria da Educação paulista admitiu não ter consultado professores e nenhum dos órgãos de gestão democrática do sistema estadual de ensino (Conselho Estadual de Educação, Conselhos de Escolas ou os grêmios estudantis).

Folha de S. Paulo – 16 de agosto de 2023: “Governo Tarcísio recua e pede ao MEC para receber livros didáticos”. Após críticas e ações na Justiça, o governo de Tarcísio de Freitas recuou e pediu ao MEC para receber os materiais do PNLD, vinculado ao governo federal. O recuo foi anunciado à imprensa somente após a Justiça conceder, por volta das 21h, uma liminar que suspendia a decisão da Secretaria da Educação paulista de não aderir ao programa federal. No ofício encaminhado ao Ministro da Educação Camilo Santana, o Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Renato Feder, informou que a pasta decidiu reconsiderar e aderir ao programa "levando em conta o diálogo com a sociedade".

Folha de S. Paulo – 16 de agosto de 2023: “Amadorismo” – Recuo de Tarcísio nos livros didáticos mostra governador pouco convicto. A administração pública de um estado populoso e relativamente rico como São Paulo pode ser comparada a um transatlântico. O governante, no timão, precisa planejar muito bem e com grande antecedência as manobras relevantes que deseja realizar para que elas aconteçam satisfatoriamente à frente. O que ocorreu no episódio dos livros didáticos foi amadorismo.

Folha de S. Paulo – 17 de agosto de 2023: “Gestão Tarcísio sofre série de reveses no plano de digitalizar ensino”. Governo paulista rescindiu contrato para compra de livros de literatura digitais, um dia depois de anunciar volta a programa do MEC que fornece gratuitamente livros didáticos impressos. A Secretaria da Educação divulgou a informação que rescindiu o contrato para a compra de 200 milhões de livros digitais de literatura, o que, conforme a Folha revelou, seria feito sem licitação. O anúncio ocorreu menos de 12 horas após a Secretaria da Educação comunicar ter desistido de outra medida, o abandono do PNLD do governo federal, que compra livros didáticos para serem distribuídos gratuitamente para as escolas públicas. Ambas as iniciativas faziam parte do plano de Renato Feder de acelerar a digitalização do ensino na rede estadual paulista, o que esbarra na falta de estrutura de parte das escolas, entre outros problemas. Segundo a Folha apurou, isolado e sem apoio de educadores, Feder já planejava voltar atrás na medida, ao menos desde o fim da semana anterior, e conversava, com discrição, com integrantes do MEC.

No dia 10 de agosto de 2023, a pedido da Abrelivros – Associação Brasileira de Livros e Conteúdos Educacionais, foi agendada entre as principais entidades da cadeia produtiva do livro e a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo uma reunião para “esclarecimentos” frente às decisões tomadas pelo governo paulista. Compareceram 15 representantes das seguintes entidades: Abrelivros, CBL – Câmara Brasileira do Livro, Abigraf – Associação Brasileira da Indústria Gráfica, SNEL – Sindicato Nacional dos Editores de Livros e IBÁ – Instituto Brasileiro de Árvores, representando fabricantes de papel editorial. A reunião marcada inicialmente para começar às 10 horas da manhã, na sede da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, na Praça da República, n. 51, aconteceria, a princípio, com o corpo técnico pedagógico e a equipe da Secretaria da Educação. Por iniciativa do Secretário da Educação, Renato Feder, em e-mail enviado à Abrelivos, foi solicitada a transferência do horário da reunião para às 17 horas, justificando, que também ele participaria. Observa-se que o e-mail seguiu com cópia aberta para o grupo de trabalho do Secretário da Educação. Às 17 horas, em ponto, adentramos na sala de reuniões, aguardando, então, Renato Feder. Um representante da cadeia produtiva do livro, do setor de papéis, atrasou-se em alguns minutos. Ao entrar na sala de reuniões, comentou: “Dei de cara com o Secretário Feder descendo as escadas em disparada, indo embora!”. Foi o que aconteceu, lamentavelmente. Fomos recebidos pelo secretário-executivo da pasta, Vinicius Mendonça Neiva, e pela chefe de gabinete, Myrian Prado. As explicações dadas pela equipe foram vagas e confusas, frustrando a todos. E o que deixou surpresos os membros da cadeia produtiva do livro foi o encerramento da reunião, interrompida abruptamente pelo secretário-executivo, alegando outro compromisso, e foi também a falta de educação dos representantes da Secretaria, que, simplesmente, viraram as costas e foram embora, sem sequer cumprimentar os presidentes de entidades e profissionais da cadeia produtiva do livro. Isso talvez explique o despreparo e o vai e vem, com as informações truncadas e errôneas, por parte da Secretaria, que obscureceram o trágico mês de agosto vivido por toda a cadeia produtiva do livro. Um dos poucos e raros momentos de lucidez, durante a reunião e também na imprensa, foi quando reconheceram que se comunicam mal. Acontece.   

João Scortecci


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MAR DE HISTÓRIAS, DE AURÉLIO & RÓNAI, E MARAVILHAS DO CONTO UNIVERSAL, DE DIAULAS & CAVALHEIRO / MARIA MORTATTI

Duas famosas antologias de contos organizadas e editadas no Brasil em meados do século XX se tornaram antológicas: Mar de histórias: antologia do conto mundial (10 volumes), organizada por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira & Paulo Rónai (José Olympio; Nova Fronteira, 1945 – 1989), e Maravilhas do conto universal (29 volumes), organizada por Diaulas Riedel e Edgard Cavalheiro (Cultrix, 1957 – 1959). 

Mar de histórias: antologia do conto mundial foi concebida e organizada por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1910 – 1989), lexicógrafo, professor, tradutor, ensaísta e crítico literário brasileiro, autor do Novo dicionário da língua portuguesa e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), e Paulo Rónai (1907 – 1992) tradutor, crítico e professor húngaro-brasileiro, agraciado com o Prêmio Machado de Assis da ABL. Como relata Rónai, logo que chegou ao País e conheceu Aurélio na redação da Revista do Brasil, tornaram-se amigos e, juntos, passaram a desenvolver projetos editoriais. Tendo identificado uma lacuna de contos estrangeiros no mercado editorial brasileiro, os organizadores passaram a selecionar e traduzir contos de escritores conhecidos e também desconhecidos, conforme critérios de qualidade literária e ordem cronológica, contendo cada volume contos de diversos autores e países, durante determinado período, desde os “precursores” no Egito antigo, até os publicados após a Primeira Guerra Mundial, o último deles datado de 1925. Os volumes contam também com notas introdutórias de apresentação de cada autor e notas de rodapé explicativas, caracterizando a “vocação didática” da coleção e, ao mesmo tempo, proporcionando aos leitores uma visão da evolução e formação histórica do gênero conto, da perspectiva dos movimentos literários, diferenciando-se de outras antologias organizadas por países/nacionalidades dos autores, como as da Livraria Martins Editora, nos anos 1940, e da Cultrix, nos anos 1950. Quanto ao título Mar de histórias, os organizadores assim explicam sua origem: “A expressão vem de uma antiga coletânea da Índia, do século XI: é a tradução do nome sânscrito Kathâsaritsâgara que significa isso mesmo: ‘mar formado pelos rios de histórias”. Afinal, um verdadeiro oceano de narrativas, muitas delas célebres, outras traduzidas pela primeira vez para a língua portuguesa, de sorte que a obra em seu conjunto ficará sendo a mais completa panorâmica do conto universal.” Em seu depoimento à Revista Tradução & Comunicação, de 1982, Rónai acrescenta: “acabou por transformar-se na ousada pretensão de fazer dela uma espécie de introdução à literatura mundial”. Mar de Histórias foi produzida durante 45 anos e reúne 245 textos de autores de mais de 40 países, totalizando cerca de 3.500 páginas. Os quatro primeiros volumes foram lançados pela José Olympio, entre 1945 e 1963, e reeditados entre 1978 e 1980. Pela Nova Fronteira foram editados os volumes seguintes até o décimo, lançado em 1989, e a coleção foi reeditada em 2014.  

Maravilhas do conto universal foi concebida e organizada por Diaulas Riedel (   – 1997), editor, gráfico e escritor brasileiro, proprietário da Cultrix, criada em 1956 e destinada à área universitária, como braço da Editora Pensamento, e Edgar Cavalheiro (1911 – 1958), escritor, editor e crítico literário brasileiro, notabilizado pela biografia de Monteiro Lobato e diretor editorial da Cultrix, para edição de obras da área de literatura entre outras. A coleção, que não é mais editada, era composta por 24 volumes de contos organizados pela nacionalidade do autor ou temática, foi publicada entre 1957 e 1959, com sucesso de vendas em domicílios e em livrarias e com inúmeras reedições e licenciamentos para outras editoras. Iniciada com o volume Maravilhas do conto francês, a coleção se inspirava em outras da época, como Obras-primas do conto, da Livraria Martins Editora, Os mais belos contos, da Editora Vecchi, e Mar de Histórias, da José Olympio, como informa Edgar Cavalheiro na apresentação do volume 1 da coleção que coorganizou. Apesar do sucesso editorial e comercial, essa coleção foi objeto de acusações e críticas, pois, como relata Laurence Hallewell, inicialmente nem todos os contos eram reproduzidos com a devida autorização legal dos detentores dos direitos autorais e de tradução, o que era prática infelizmente "comum" na época; a situação foi regularizada quando, em 1961,o poeta, tradutor e crítico literário brasileiro José Paulo Paes (1926 – 1998) assumiu a direção editorial da Cultrix.

Para alguns críticos literários, a antologia Mar de Histórias é a maior e a melhor obra do gênero produzida no Brasil. Para outros, esse posto cabe à Maravilhas do conto universal. lém de outras de sucesso, mas talvez de menor brilho, ambas as antologias – do grego "anthologia", coleção/estudo das flores –, formadas pela reunião, neste caso, de contos de diferentes autores renomados de diferentes épocas, representaram avanços editoriais e culturais no Brasil no período de “crise” econômica que atingiu também a indústria e o mercado do livro após a Segunda Guerra Mundial. E ambas se tornaram antológicas, como obras de referência e divulgação, para os brasileiros, de clássicos da literatura universal. Ambas também fazem parte de minha biblioteca desde os anos 1980. De certo modo, cumpriram a função introdutória à literatura mundial e, até hoje, proporcionam-me prazerosos mergulhos nessas maravilhas e nesse “mar formado pelos rios de histórias”.

Maria Mortatti – 18.08.2023


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O PRELO DE FERRO DE STANHOPE E O IMPRESSOR HONORÉ DE BALZAC / JOÃO SCORTECCI

O escritor, gráfico e cientista britânico Charles Stanhope (1753 – 1816) inventou um prelo, por volta de 1795, com um único propósito: publicar as suas obras. Apelidado de “Stanhope press”, o prelo era totalmente construído em ferro. As suas principais inovações foram a pressão regulável – por meio de uma alavanca – e as calhas oleadas de entintamento. Devido a um contrapeso no braço da alavanca de pressão, ela regressava automaticamente à sua posição inicial. Com essas melhorias no sistema de prensagem e de entintagem, obtinha-se uma produção uniforme, fina e constante de até 100 exemplares por hora. A “engenhoca” de Stanhope – em substituição aos tradicionais prelos de madeira – alcançou sucesso com a impressão do jornal inglês “The Times” ("Os Tempos"), de John Walter, fundado em 1785. Em pouco tempo, o jornal conquistou o continente europeu, depois de ter chegado, em 1814, à França, o maior centro gráfico, cultural e intelectual da época. O escritor e também impressor francês Honoré de Balzac (1799 – 1850), considerado o fundador do Realismo na literatura moderna, descreve ao longo das páginas do livro “Ilusões Perdidas”, editado em 1837, as transformações tecnológicas e as consequências da importação do invento de Charles Stanhope. Honoré de Balzac ficou conhecido com a publicação, entre outros, do livro “La Femme de trente ans” (“A Mulher de Trinta Anos”) escrito em seis partes, entre 1829 e 1842. Em prelos de ferro, foram “forjados” o design e as fontes tipográficas Didot (por Firmin Didot, 1764 – 1836), na França; Bodoni (por Giambattista Bodoni, 1740 – 1813), em Parma-Itália; e Baskerville (por John Baskerville, 1706 – 1775), na Inglaterra. Em Portugal, coube a Joaquim António Xavier Annes da Costa, administrador da Impressão Régia – hoje, Imprensa Nacional –, com autorização da patente inglesa, a fabricação de 13 prelos de ferro. Hoje restam seis dos prelos de Stanhope, em exposição no Memorial da Imprensa Nacional, e dois outros, no acervo do Memorial da Universidade de Coimbra. Durante a administração de Joaquim António Xavier Annes da Costa, de 1808 a 1833, a Impressão Régia publicou cerca de 2.000 títulos, tendo atingido, em 1832, o total de 102 colaboradores gráficos.

João Scortecci


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O POETA HESSE – O ANZOL PEGOU NA GOELA / JOÃO SCORTECCI

O poeta e escritor suíço-alemão Hermann Hesse (1877 – 1962) foi meu escritor de “cabeceira” nos anos 1970. Primeiro foi O lobo da estepe, depois Sidarta e Demian e, por fim, O jogo das contas de vidro, seu último livro. Depois do sucesso do romance Peter Camenzind (1903), sobre a vida de um escritor falido, sua carreira decolou.  Hesse foi livreiro durante cinco anos – até 1904 – e, em 1946, recebeu o Prêmio Goethe e o Nobel de Literatura. Em 1911, esteve na Índia e, em 1922, publicou Sidarta, sobre a vida de Buda: busca pela iluminação e plenitude espiritual. O livro, na época, mexeu profundamente comigo, e a obra faz parte da minha lista dos imortais. O poeta Hesse é pouco conhecido no Brasil. Relendo sua biografia encontrei o algo do hoje: “Hora após hora eu ando agora, e em minhas faces,/em fogo sinto os ventos de um distante verão;/vocalizo canções de quando era rapaz,/penso na pátria – e sei que não a encontro mais.” No poema “A morte a pescar de anzol”, o sofrimento de um povo: “Senta-se a Morte e vai pescando-nos da vida/com sua linha torpe, invisível e fina./Não há truque ou esforço que nos valha mais:/ela tem paciência e uma isca que fascina.//Quem cai no seu anzol, pode cavar na areia/ou no lodo, ou tentar qualquer manha mesquinha:/senta-se a Morte nele, e não mais lá na beira./Está perdido, mesmo que arrebente a linha.//Pode, numa escapada, no fundo revolto/longo tempo esconder-se ainda com medo dela:/para finar-se, está completamente solto./Nada tem gosto mais: o anzol pegou na goela.” Hermann Hesse faleceu no dia 9 de agosto de 1962, na cidade de Montagnola, Suíça, aos 85 anos de idade.

João Scortecci

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OS DEDOS VERDES DE TISTU E DRUON / MARIA MORTATTI

Para Arthur, pequeno grande leitor.

Começando pelo fim: Tistu era um anjo. E disso seus leitores já desconfiam desde o início da narrativa. João Batista foi o nome escolhido pelo padrinho e madrinha, mas o bebê protestou, chorando e, de repente, todos os estavam chamando de Tistu. Tinha cabelos loiros e crespos nas pontas, olhos azuis e faces rosadas de macias. Morava em Mirapólvora, na Casa-que-Brilha. Era filho do Sr. Papai, dono de uma fábrica de canhões, e da Sra. Mamãe, ambos muito ricos. Carolo era o criado, e Siá Amélia, a cozinheira da família. Tistu tinha um pônei de estimação, Ginástico, tinha aulas de ordem com Sr. Trovões, braço direito do Sr. Papai na fábrica, e aulas de jardinagem com o velho jardineiro e seu amigo, Sr. Bigode. Foi ele quem descobriu o polegar verde de Tistu que era invisível e realizava “proezas originais”, “fazendo crescer plantas e flores onde quer que colocasse seu polegar”. Assim ele semeou flores e plantas na cadeia e na favela, na vida da menina doente e nos canhões da fábrica do Sr. Papai, impedindo a guerra entre os Voulás e os Vaitimboras, que disputavam petróleo em um deserto. Corajoso que era, Tistu acabou revelando o segredo, tornou-se famoso na cidade e no mundo, o pai passou a “fabricar” flores e a cidade passou a se chamar Miraflores. Após a morte do Sr. Bigodes, Tistu, inconformado, tentou usar seu polegar para fazer uma longa escada de flores e buscar seu amigo no céu, mas “(...) descobriu que a morte é o único mal contra o qual as flores nada podem”. E "desapareceu para sempre naquele mundo invisível, do qual até as pessoas que escrevem histórias não sabem coisa alguma.” Roendo a relva no prado, Ginástico traçou com botões de ouro: “Tistu era um anjo”.

O menino-anjo foi criado por Maurice Druon (23.04.1918 – 14.04.2009), escritor e decano da Academia Francesa. De ascendência russa por parte do pai e brasileira por parte do bisavô, Odorico Mendes (1799 – 1864) – escritor, jornalista e político maranhense e tradutor de Homero e Virgilio –, Druon ingressou nas forças da Resistência, durante a Segunda Guerra Mundial, e, em 1942 foi clandestinamente para Londres, para trabalhar nos serviços de informações da chamada "França Livre", junto do general francês Charles De Gaulle. Com seu tio, Joseph Kessel, Druon compôs o Chant des partisans, musicado pela russa Anna Marly, que se tornou hino dos movimentos da Resistência. Após a guerra, dedicou-se à carreira de escritor, com ensaios, peças de teatro e romances históricos de muito sucesso. Em 1948, ganhou o Prêmio Goncourt, com o romance As grandes famílias. Em 1966, aos 48 anos de idade, foi eleito para a Academia Francesa, recebeu muitas condecorações e prêmios pelo conjunto da obra e foi ministro da Cultura de 1973 a 1974. Entre 1955 e 1977, publicou os sete volumes da série Os Reis Malditos – sobre a monarquia francesa nos séculos XII e XIII – traduzida para mais de 30 idiomas e adaptada para a TV em 1972 e 2005, tendo inspirado o roteirista e escritor de ficção científica George R. R. Martin, em cuja série de livros se baseia a série de TV norte-americana Game of Thrones

Tistou les pouces verts (Tistu polegares verdes, em tradução literal) é sua única narrativa de ficção e a única destinada a público infantojuvenil, que tornou o autor mundialmente conhecido e o livro, um clássico da literatura para todas as idades. No Brasil, com o título O menino do dedo verde, foi publicado pela José Olympio, presumivelmente em 1964, com ilustrações de Marie Louise Nery e tradução pelo monge beneditino Dom Marcos Barbosa (1915 – 1997), membro da Academia Brasileira de Letras e também tradutor de O pequeno príncipe (1943), de Saint-Exupéry. Em linguagem poética e bem-humorada, a narrativa de Druon trata de questões de sua época e sempre atuais e universais, como uma mensagem de paz e esperança semeada pelos “dedos verdes” do protagonista e do autor, nas mentes e corações dos leitores crianças, jovens e adultos. Foi algo assim que uma amiga escreveu na dedicatória do exemplar com que me presenteou no Natal de 1978, desejando que eu transformasse em flor cada coisa que tocasse. Não sendo anja, não tive muito sucesso nessa missão, mas continuo ao menos espalhando a história de Druon. Hoje foi a vez de Arthur, pequeno grande leitor. A ele entreguei meu exemplar daquele livro, presente de dia de leiturança, com esta dedicatória: com a esperança que “um vento (...) carregue para um jardim ou um campo” as sementes que existem em toda parte e que, para germinarem e florescerem, aguardam serem tocadas pelo invisível dedo verde do adorável de Tistu e espalhadas por Arthur e todas as meninas e meninos, senhoras e senhores Bigode.  

Maria Mortatti – 11.08.2023/12.10.2023 

12 de outubro: Dia da Leitura. Dia da Criança. Dia de leiturança.


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EM CISMAR – SOZINHO – À NOITE! / JOÃO SCORTECCI

O poeta e acadêmico Antônio Gonçalves Dias (1823 – 1864), autor do poema “Canção do exílio”, morreu aos 41 anos de idade, em um naufrágio do navio Ville Bologna, na baía de Cumã, município de Guimarães, no estado do Maranhão. Gonçalves Dias foi um ávido pesquisador das línguas indígenas e do folclore brasileiro. Formou-se em Direito (Coimbra, Portugal), retornando ao Brasil em 1845, após bacharelar-se. No exílio escreveu o imortal poema “Canção do Exílio”: “Minha terra tem palmeiras/Onde canta o Sabiá;/As aves, que aqui gorjeiam,/Não gorjeiam como lá.//Nosso céu tem mais estrelas,/Nossas várzeas têm mais flores,/Nossos bosques têm mais vida,/Nossa vida mais amores.//Em cismar – sozinho – à noite –/Mais prazer encontro eu lá;/Minha terra tem palmeiras;/Onde canta o Sabiá. Minha terra tem primores,/Que tais não encontro eu cá;/Em cismar – sozinho – à noite –/Mais prazer encontro eu lá;/Minha terra tem palmeiras,/Onde canta o Sabiá.//Não permita Deus que eu morra,/Sem que eu volte para lá;/ Sem que eu desfrute os primores/Que não encontro por cá;//Sem qu'inda aviste as palmeiras,/Onde canta o Sabiá.” O verso mais bonito – no meu entendimento – de "Canção do Exílio" é desconhecido da grande maioria: “Em cismar – sozinho – à noite”. Ficar absorto em pensamentos – sozinho – e ser devorado de saudade pelo canto do sabiá. Dia 10 de agosto de 2023, comemora-se o bicentenário de nascimento do poeta Gonçalves Dias. Sua canção – vez por outra – “cisma” com o coração da noite e eu, náufrago em Cumã, acordo-me exilado de mim mesmo. 

João Scortecci


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SOBRE FARSAS, ASNOS E CAVALOS: A INÊS PEREIRA, DE GIL VICENTE / MARIA MORTATTI

“Mais quero asno que me leve do que cavalo que me derrube” é um ditado popular utilizado como motivo/argumento da Farsa de Inês Pereira, escrita pelo poeta e dramaturgo português Gil Vicente (c.1465 – c.1536) e representada “ao muito alto e mui poderoso rei D. João III, no Convento, em Tomar: era do Senhor de 1523”. O argumento lhe foi proposto, por “certos homens de bom saber”, como desafio para escrever uma farsa e, assim, provar sua “inocência” e a autenticidade de suas peças aos que o acusavam de farsante e plagiador das peças do poeta e dramaturgo espanhol Juan del Encina (1468 – 1529).

Farsa é um tipo de peça teatral breve, que se desenvolveu principalmente na França, entre os séculos X e XVI, com monólogos cômicos, situações ridículas e grosseiras, caricaturas e predomínio de enganos, equívocos, astúcia e mistificação. A maioria delas se originavam da tradição oral e eram transmitidas oralmente. Depois da invenção da prensa de tipos móveis, por Gutenberg, os primeiros impressores faziam cópias para vender, aproveitando a popularidade do gênero. Algumas, porém, foram orginalmente registradas por escrito, como Le garçon et l'Aveugle (século XIII), a primeira farsa francesa escrita, e La farce de Maître Pathelin, escrita por volta de 1457. Entre 1440 e 1560, foram escritas mais de uma centena, e esse gênero influenciou dramaturgos do século XVII, como Shakespeare e Molière, e dos séculos seguintes. Em língua portuguesa, Gil Vicente, mestre do teatro medieval e da análise do comportamento humano, buscando, por meio da ridicularização dos costumes, corrigir os hábitos e vícios da sociedade, também escreveu farsas – algumas denominadas de "autos", pelo filho que reuniu sua obra. A de Inês Pereira é uma das mais famosas.

Inês Pereira – a protagonista dessa farsa vicentina –, quando solteira, era infeliz, porque não conseguia realizar o sonho de se casar com um homem discreto, galanteador e que soubesse “tanger”. Recusa a proposta intermediada pela alcoviteira, Lianor Vaz, de se casar com Pero Márquez, um bom moço, rico, mas pobre de espírito. Aceita, depois, a proposta de se casar com o Escudeiro, Brás da Mata, um impostor que os dois judeus, Latão e Vidal, apresentaram-lhe como portador de todos as qualidades com que ela sonhara. Mas ele a maltrata, tornando-a prisioneira, abandona-a, morre em batalha, e ela descobre que não era o que sonhara. Depois de enviuvar, casa-se com Pero Márquez – seu primeiro pretendente –, homem “manso” que a deixa livre, e ela, então, torna-se amante do Ermitão, cópia perfeita do Escudeiro. Enfim, ela se sente feliz e é literalmente carregada nos ombros pelo marido, quando atravessam o rio para ela se encontrar com o amante. Enquanto ele a carrega, repete o refrão que ela o ensina a entoar: “Pois assim se fazem as cousas”. 

De certo modo surpreendente para a moralidade da época – e sobretudo para a jovem estudante de Letras nos anos 1970, quando li a farsa na compilação Obras-primas do teatro vicentino, por Segismundo Spina (Difel) –, o desfecho enfatiza o lugar da mulher representada por Gil Vicente: ela não é punida pelo adultério; ao contrário, pela comicidade com que é representado o marido traído, ressaltam-se o protagonismo e a astúcia da mulher que, afinal, consegue o que sonhara. Assim, Gil Vicente provou que não era farsante, e a farsa imortalizou Inês Pereira, que, no ano em que escrevo este texto, completa cinco séculos de existência literária. Assim se fazem as coisas e a arte que dura no tempo, porque contém verdades sempre atuais a provocar a reflexão sobre a vida de mulheres e homens e – por que não? – também sobre asnos astutos e cavalos pobres de espírito.

Maria Mortatti – 09.08.2023


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EU SOU UM LIVRO DE VERDADE / JOÃO SCORTECCI

Eu sou um livro de verdade. Um exemplar raro do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, do escritor Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis, 1839 – 1908), considerado pela crítica literária o maior escritor da literatura brasileira. Fui impresso no ano de 1881, nas Oficinas da Typographia Nacional, na cidade do Rio de Janeiro. Tenho pouco mais de 142 anos de vida, capa ainda em bom estado, páginas amareladas – por efeito do tempo – e corpo revestido com uma belíssima encadernação. Uma raridade – em primeira edição – com dedicatória do autor e algumas anotações, que lembram tatuagens. Estou catalogado e ocupo lugar de destaque no acervo da biblioteca de um importante bibliófilo paulistano. Tive sorte! Não sei se vocês sabem: nós, os livros, é que escolhemos nossos amigos, protetores e leitores. Um livro impresso em papel – novo ou antigo – precisa de amor, carinho, atenção e cuidados especiais! Antes de ganhar notoriedade de obra rara, passei um longo tempo morando em um sebo “fuleiro”, jogado, literalmente, aos ratos e às traças. Já sobrevivi a um incêndio, escapei de um vazamento de água na cabeça da lombada, sofri ameaça de descarte e de ser – mortalmente – reciclado. Minha morte – anunciada – seria uma tragédia literária! Um crime! Felizmente escapei do pior. Fui resgatado. Nós, os livros, sofremos ataques e destruição por fanatismo religioso e político, vandalismo, maus tratos, contaminação por fungos e bactérias e por ignorância. Minhas páginas estão amareladas e ásperas: o tempo é cruel. É o desgaste natural causado pelos excessos de exposição a luz, umidade, temperatura inadequada e inimigos predadores, como os homens pobres de espírito, cupins, traças e roedores. Nós, os livros, gostamos de ficar em prateleiras limpas, afastados do contato com as paredes e seguros. Ventilação e limpeza são indispensáveis para a nossa sobrevivência. Não gostamos de calor. Com 22 °C está perfeito! Temperatura excessiva – acima de 23 °C – faz com que as fibras de celulose percam as suas propriedades essenciais: elasticidade, flexibilidade e resistência. A umidade relativa do ar não deve ultrapassar 60 %. Iluminação ambiental de 50 watts é a correta. A luz artificial mais utilizada é a fluorescente. Nunca se deve utilizar luz ultravioleta. Ela nos mata! Nosso “dia mundial” é 23 de abril. É a data escolhida pela Unesco para celebrar o livro, incentivar a leitura, homenagear autores e refletir sobre seus direitos legais. Foi escolhida em tributo aos escritores Miguel de Cervantes, Inca Garcilaso de la Vega e William Shakespeare, que morreram em 23 de abril de 1616. Nosso “dia nacional” é 29 de outubro. Foi escolhido por ser o dia do aniversário da Biblioteca Nacional do Brasil – Fundação Biblioteca Nacional –, fundada em 29 de outubro de 1810. São datas a serem celebradas todos os dias e por todos nós. Não se ama um livro vez por outra e muito menos com lapsos de memória. Nossas almas são eternas e, quando tocadas, contam histórias, fazem versos, ensinam conhecimento e propagam sabedoria através dos tempos. Eu sou um livro de verdade. E você?

João Scortecci

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LIVRO DIDÁTICO NO BRASIL: UMA TRADIÇÃO BICENTENÁRIA / MARIA MORTATTI

Para os brasileiros que – como eu – iniciaram seu processo de escolarização no século XX e para os das gerações seguintes, pode parecer natural utilizar livros didáticos impressos para o ensino e o aprendizado de leitura, escrita e de diferentes matérias do currículo escolar. Mas nem sempre foi assim. Essa é uma tradição recente, fundada no século XIX e, apesar de contradições e polêmicas, consolidada a partir do final do século XX. 

Sob a denominação geral “livros escolares”, podem-se distinguir diferentes tipos – manuais de ensino, livros didáticos, compêndios, cartilhas, livros de leitura, entre outros – desse gênero textual impresso, destinado à utilização nos diferentes níveis e modalidades de ensino na escola brasileira, a partir de meados do século XIX e tributários de modelos europeus. De acordo com o historiador francês Alain Choppin, no Ocidente europeu, em contexto de constituição dos estados nacionais e desenvolvimento de sistemas educativos, o livro didático se tornou fundamental como instrumento de unificação nacional, por meio da formação educacional escolar de crianças e jovens. Envolvendo uma complexa cadeia criativa, produtiva, avaliativa, distributiva – autores, editores, gráficos e poder público, entre outros – o livro didático se tornou também objeto de regulamentação, por parte do Estado, agente responsável tanto pelo controle, elaboração, avaliação e gestão do que atualmente se denominam “políticas públicas” para o setor quanto pela aquisição desse tipo de impresso. 

No Brasil, a produção sistemática do livro didático, como o conhecemos hoje, iniciou-se com o processo de modernização, após a vinda da Corte portuguesa, em 1808, com a chegada da primeira impressora e a criação da Impressão Régia, para impressão de jornais, livros, panfletos e também com função de censora, conforme critérios religiosos, políticos e morais. Até então, era proibida a instalação de tipografias na Colônia, e os poucos livros escolares – para o ensino secundário – utilizados aqui eram importados da Europa ou traduções lá impressas. Para o ensino elementar/primeiras letras, então muito precário ou quase inexistente, ensinava-se predominantemente leitura, escrita e aritmética, as aulas eram ministradas em salas alugadas, com turmas de alunos de diferentes idades, por mestres-escolas que não tinham habilitação específica, e era escasso e rudimentar o material escrito disponível: abecedários, documentos de cartórios e cartas manuscritas, entre outros. O primeiro livro escolar publicado pela Impressão Régia foi Leitura para os meninos (1818), do engenheiro militar e político José Saturnino da Costa Pereira. Nos anos 1820/1830, dois fatores principais contribuíram para o desenvolvimento do livro didático brasileiro. Em 15 de outubro de 1827, foi promulgada a lei, assinada por D. Pedro I, que regulamentava a gratuidade da instrução primária (prevista  na Constituição Imperial de 1824), considerada a primeira tentativa de se criarem diretrizes nacionais para a instrução pública, pois se estabelecia a criação de escolas de primeiras letras destinadas à população livre (de ambos os sexos) e se regulamentavam o método de ensino (monitorial-mútuo), o recrutamento de professores e o controle de suas atividades, entre outros aspectos. Ainda nesse período, livreiros-editores iniciaram suas atividades com a publicação de livros didáticos de autores brasileiros, como o editor e jornalista francês Pierre Plancher, que, em 1827, inaugurou esse tipo de publicação, com dois livros, pela Typographia Plancher-Seignot, do Rio de Janeiro: o Compendio scientifico para a mocidade brasileira, destinado ao uso das escolas dos dous sexos, organizado pelo advogado José Paulo de Figueirôa Nabuco de Araújo; e Escola brasileira, ou Instrução útil a todas as classes, extraída da Sagrada Escritura para uso da mocidade (2 vol.), escrito pelo senador José da Silva Lisboa, o visconde de Cairu. Ainda em relação ao ensino secundário, com a criação do Colégio Pedro II, em 1838, no Rio de Janeiro, e a inclusão de outras matérias nos currículos escolares, autores brasileiros, geralmente professores dessa escola, passaram também a publicar livros didáticos que se tornaram modelares, como a Anthologia Nacional (1895), de Fausto Barreto e Carlos de Laet, com 43 edições até 1969.  Como relata a pesquisadora brasileira Circe Bittencourt, em 1885 circulavam no Brasil 318 títulos de livros escolares, geralmente impressos por editoras nacionais, que buscavam se adequar às normas dos conselhos da instrução pública para obter aprovação. Três editoras respondiam por 44,2% da produção desses livros: a Laemmert; a Garnier – responsável, em 1885, por 21% dos títulos usados nas 3.000 escolas no Brasil, cujo editor dizia “Romance é o osso, livro didático é a carne.”; e a Francisco Alves, cujo editor – considerado pioneiro na edição de didáticos – assumiu a empresa do tio, Nicolau Alves, e passou a investir na publicação dos didáticos, quase monopolizando essa produção no início do século XX e expandindo a venda de livros para todo o País, além de ter se filiado à Livraria Bertrand de Lisboa e à Livraria Aillaud, de Paris, que  garantia baixos custos para as publicações didáticas brasileiras.

Também nas pesquisas que venho desenvolvendo ou orientando desde os anos 1990, cujos resultados se encontram principalmente no livro Os sentidos da alfabetização – São Paulo 1876/1994 e no artigo “Cartilha de alfabetização e cultura escolar: um pacto secular” (ambos de 2000), ainda durante o século XIX o processo de nacionalização do livro didático – produzido por brasileiros e adequado à realidade brasileira –, acompanhando processos de organização da instrução pública, impulsionou o mercado editorial brasileiro, que encontrou na escola espaço privilegiado de circulação e público consumidor de seus produtos. Entre as principais publicações, destacavam-se as cartilhas de alfabetização que integravam séries de leitura e se tornaram modelares para a produção didática no País, no âmbito da instrução elementar/primária. A primeira foi a série de cinco livros de leitura, de 1866, do médico baiano Abílio César Borges, Barão de Macaúbas, seguida da do professor Hilário Ribeiro, de [1880]. Após a proclamação da República e até o início do século XX, livros didáticos das matérias curriculares e, em especial, as séries de leitura se consolidaram, envolvendo: o engendramento de um tipo específico de escritor didático profissional – o professor (em substituição ao bacharel); e o processo de institucionalização da cartilha e demais livros didáticos, mediante sua aprovação, adoção, compra e distribuição às escolas públicas, por parte de órgãos dos governos estaduais. A produção de cartilhas e séries de leitura se intensificou, à medida que foram se implantando sistemas estaduais de instrução pública. Com a expansão do ensino primário e a necessidade de alfabetização das “massas” populacionais, em decorrência de processos de urbanização, industrialização e integração dos imigrantes, a questão dos métodos de alfabetização se tornou questão política, além de didática, suscitando polêmicas e disputas acirradas. Muitas séries de leitura, incluindo cartilhas, foram publicadas do final do século XIX até principalmente meados do século XX. Entre elas, muitas ficaram famosas em sua época e por décadas seguintes, como as de: Felisberto de Carvalho, de [1892]; Romão Puiggari e Arnaldo Barreto, iniciada em [1903]; Thomaz Galhardo, de [1880]; Francisco F. Mendes Vianna, de 1908; João Köpke, iniciada em [1900]; Antonio Firmino Proença, iniciada em 1926; e, ainda, Cartilha do povo (1928) de Manoel Bergström Lourenço Filho, e cartilha Caminho suave (1948), de Branca Alves de Lima. Publicadas por editoras que, além da Francisco Alves, especializaram-se em livros escolares no início do século XIX, como a Melhoramentos, muitas dessas cartilhas se tornaram best-sellers que ficaram em catálogo por décadas seguidas, com milhares de edições e milhões de exemplares vendidos, com destaque para a cartilha Caminho suave (1948), editada até hoje.

Desde o século XIX no Brasil, o poder público, como agente regulador, foi aprimorando mecanismos de controle, avaliação, gestão e distribuição do livro didático. Inicialmente sob responsabilidade de órgãos do Império, após a proclamação da República esse processo passou sistematicamente para a responsabilidade dos conselhos de diretores da instrução pública das províncias/estados. Após avaliação, era conferida certificação de aprovação aos livros didáticos, o que impulsionava a adoção pelas diretorias de instrução pública estaduais, sempre vinculando sua adequação às reformas educacionais do momento. Com a federalização de iniciativas estaduais e reformas educacionais e curriculares implantadas a partir dos anos 1930, durante o governo do Presidente da República Getúlio Vargas, em 1937 foi criado o INL – Instituto Nacional do Livro, com a atribuição de editar obras literárias e fomentar a expansão das bibliotecas públicas em todo o país. Em 1938, o Decreto-lei n. 1.006 estabeleceu as condições de produção, importação e utilização do livro didático, com a criação da CNLD – Comissão Nacional do Livro Didático, cujo objetivo era regular e fiscalizar todas as obras a serem utilizadas nas escolas brasileiras. O livro didático se beneficiou também da isenção de tributação sobre livros e periódicos, emenda constitucional n. 3.064, de 1946, de autoria do escritor e deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro, Jorge Amado. Em 1956, durante o governo do Presidente da República Juscelino Kubitschek, foi criada a CNME – Campanha Nacional de Material de Ensino, com a função de produzir materiais escolares e obras de consulta para os estudantes brasileiros, além de outras campanhas desse tipo voltadas para o ensino secundário e médio. Estabeleceram-se, ainda, incentivos à indústria gráfica brasileira, como a redução do custo do papel e da impressão, a isenção para o setor livreiro e a indústria de papel de grande parte dos impostos, além da redução das tarifas postais para os livros. Integrando a política de industrialização do período, esse incentivo proporcionou crescimento da indústria gráfica em 143%, entre 1950 e 1960, de acordo com o pesquisador inglês Lawrence Hallewell. Com a promulgação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação, em 1961, mudanças importantes, como a expansão da rede de escolas públicas, impulsionaram investimentos na aquisição e distribuição de livros e material didáticos. Durante a ditadura militar, foi criada, em 1966, a Colted – Comissão do Livro Técnico e do Livro Didático, decorrente do acordo do MEC com a Usaid – Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional, e com a colaboração do Snel - Sindicato Nacional dos Editores de Livros, sendo prevista a distribuição de 51 milhões de exemplares de livros didáticos em três anos. Em 1967, a CNME se tornou a Fename – Fundação Nacional do Material Escolar, que ampliou a publicação de livros e material didáticos. Em 1971, com o término do acordo MED/Usaid, foi extinta a Colted, e o INL passou a desenvolver o Plidef – Programa do Livro Didático para o Ensino Fundamental, com atribuições administrativas e de gerenciamento dos recursos financeiros. Em 1976, o INL foi extinto, e a execução do Plidef passou para a Fename – Fundação Nacional do Material Escolar. Ainda em 1976, o governo iniciou a compra de livros didáticos com recursos do FNDE – Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Em 1983, em substituição à Fename, foi criada a Fae – Fundação de Assistência ao Estudante. Em 1985, em substituição ao Plidef, foi criado o PNLD – Programa Nacional do Livro Didático, que instituiu mudanças importantes para a elaboração, produção, escolha pelos professores, distribuição e utilização do livro didático, com função de distribuir livros didáticos e literários, de forma universal e gratuita, às escolas públicas das redes de ensino básico e também às instituições de educação infantil sem fins lucrativos e conveniadas com o Poder Público. Em 1993, no âmbito do PNLD, iniciou-se o processo de avaliação, que originou o guia de livros didáticos de 1996 – ano em que foi promulgada a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional –, e o processo foi aprimorado, tornando-se parâmetro para avaliação para autores e editoras. Em 1997, a Fae foi extinta, e a execução do PNLD e, depois, também do PNLD Literário passou para a responsabilidade do FNDE, iniciando-se produção e distribuição ampla e contínua do livro didático, para todas a matérias curriculares do ensino fundamental, depois para o ensino médio e a educação de jovens e adultos. Em 2012, o PNLD incluir material multimídia em DVD, com jogos, simuladores e infográficos para serem utilizados como recurso didático. E, em 2019, incluiu a aquisição de livros com formato digital e acessíveis à tecnologia que permite recursos de acessibilidade. Em 2017, foram unificados o PNLD e  o PNBE – Programa Nacional Biblioteca da Escola (criado em 1997 e que inclui obras literárias, periódicos e material para professores), com a denominação Programa Nacional do Livro e do Material Didático, incluindo outros materiais de apoio à prática educativa para além das obras didáticas e literárias. Segundo dados da pesquisa realizada pela Nielsen Book e coordenada pelo Snel e pela CBL – Câmara Brasileira do Livro, em 2022 as vendas das editoras brasileiras ao Governo foram de 126 milhões de exemplares, com faturamento de 1,4 bilhão de reais.  

Ao longo dos últimos dois séculos, acompanhando mudanças políticas, sociais, culturais, educacionais, editoriais e gráficas no Brasil e no mundo, o livro didático impresso foi se aprimorando e se consolidando como objeto cultural e instrumento de educação escolar e, por vezes, como o único ou um dos únicos livros impressos a que têm acesso a maioria das crianças de escolas públicas brasileiras e seus familiares. Dadas sua penetração, relevância e vultosos investimentos do governo federal para avaliação, aquisição e distribuição, as questões envolvidas nas políticas públicas do livro didático suscitam também intensos debates no âmbito da escola, da pesquisa universitária, da indústria editorial e gráfica e mobilizam pais, associações, entre outros, provocando polêmicas com intensa repercussão na imprensa e, na Era Digital, também nas mídias sociais, como o atual debate entre os inúmeros defensores do livro didático impresso e alguns defensores do livro didático digital, como único instrumento de ensino e aprendizagem escolar. Dada, porém, sua constante atualização por parte dos agentes envolvidos com sua regulação e sua produção para se adaptar a políticas públicas, currículos escolares, inovações científicas, educacionais e tecnológicas, o livro didático impresso tem existência  perene na rotina escolar dos brasileiros assim como na educação, na cultura e na economia do País. 

Mais do que o mero suporte físico para armazenamento de folhas impressas encadernadas e ainda que possa também apresentar versão digital (e-book), o livro didático é substantivamente livro, ou seja, resultado do trabalho profissional de muitas mentes e mãos, para produzir, registrar e divulgar – de forma didática e com finalidade de ensino e aprendizagem – conhecimentos científicos, literários e culturais acumulados pela humanidade, com ISBN – International Standard Book Number e o devido depósito legal na Fundação Biblioteca Nacional, também criada no período imperial brasileiro. Como tal, o livro didático impresso é patrimônio e tradição bicentenária fundada, não por acaso, logo após a Independência do Brasil e a criação do Estado-Nação brasileiro. 

Maria Mortatti – 06.08.2023

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"APOCALIPSE DO LORVÃO" – ILUMINADO E VENENOSO / JOÃO SCORTECCI

O “Apocalipse do Lorvão” é um manuscrito iluminado do século XII, produzido no “scriptorium” do Mosteiro do Lorvão, localizado nas cercanias de Coimbra, Portugal. A iluminação, feita pelos monges, era uma pintura decorativa aplicada às letras capitulares dos códices de pergaminho medievais, e era muitas vezes tóxica, usada com o propósito de proteger a obra de profanos e ladrões que, desavisados, acabavam colocando os dedos na boca, depois de folheá-los, morrendo, consequentemente, envenenados. Verdadeiro castigo divino! O “Apocalipse do Lorvão” é um dos primeiros e mais suntuosos manuscritos iluminados do reinado de D. Sancho I (1154 – 1211), segundo rei de Portugal. A obra é um comentário ao “Livro do Apocalipse”, o último livro do Novo Testamento, que contém as revelações recebidas pelo Apóstolo S. João, o Evangelista, quando ele se encontrava na ilha de Patmos, uma das ilhas vulcânicas do Dodecaneso, do mar Egeo. Trata-se de uma cópia de um dos 31 códices do “Commentarium in Apocalypsin”, do século VIII (776 – 786), escrito pelo monge Egeas, da comarca de Liébana, Cantábria, Espanha. O “Apocalipse de Lorvão” é cópia incerta de um dos Beatos – denominação de famílias de códices. O original se perdeu no tempo, não se sabendo ao certo qual teria sido o exemplar copiado. Depois da extinção das Ordens Religiosas em Portugal, em 1834, o manuscrito iluminado “Apocalipse do Lorvão” foi retirado do Mosteiro do Lorvão, em 1853, e depositado na Torre do Tombo (Arquivo Nacional da Torre do Tombo), em Lisboa, Portugal, pelo escritor, historiador e poeta português Alexandre Herculano (Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo, 1810 – 1877). 

João Scortecci


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BESTIÁRIOS MEDIEVAIS: MANUSCRITOS ILUMINADOS COM SERES FANTÁSTICOS / MARIA MORTATTI

Bestiário ou Livro das bestas (do latim “bestia”, “animal”) era, na Idade Média, a denominação de um gênero de literatura em prosa ou verso, contendo descrições físicas e de comportamento de animais, reais ou imaginários – além de plantas e minerais –, acompanhadas de explicação e de uma ou mais iluminuras, pintura decorativa aplicada às letras capitulares ou a representações imagéticas nos manuscritos (códices ou pergaminhos) medievais, produzidos principalmente em conventos. Os bestiários não foram os únicos manuscritos iluminados, mas, numa época em que poucos sabiam ler – muito menos em latim, idioma da maioria dos bestiários – as iluminuras não eram mero elemento decorativo nesse tipo de livro. Os animais reais ou imaginários simbolizavam vícios e virtudes humanos, com função de transmitir ensinamentos morais e religiosos, ligados principalmente ao cristianismo. Embora a fonte dos ensinamentos fosse a natureza, como a conheciam na época, o objetivo não era um texto científico. Algumas observações e imagens do mundo natural eram precisas, sobre animais considerados positivos – como leão e águia – ou negativos – como porco e serpente –, mas outros eram completamente fantásticos – como a fênix, dragão, unicórnio, basilisco, bonnacon. Texto e imagem compunham o sentido e a dimensão alegórica e simbólica desses livros, caracterizando-os como literatura dos laicos (litterature laicorum) e um poderoso recurso com função didática e moralizante: "para melhorar a mente das pessoas comuns, de tal maneira que a alma perceba pelo menos fisicamente as coisas que ela tem dificuldade em compreender mentalmente: o que eles têm dificuldade em compreender com os ouvidos, eles perceberão com os olhos" (Bestiário de Aberdeen). Durante a Idade Média, o sucesso e a popularidade dos bestiários eram comparáveis aos da Bíblia.

Os bestiários remontam à Antiguidade clássica greco-latina, e o mais importante foi o Physiologus (Fisiólogo), de autoria desconhecida, escrito em grego, entre os séculos I e III, em Alexandria. Continha histórias baseadas nos fenômenos da natureza, divididas em 48 seções, uma para cada planta, pedra ou animal relacionados com a Bíblia. O original não foi localizado, e o que se conhece é uma retradução. Mas alcançou tanta popularidade que, no século V, foi traduzido na Etiópia, na Síria e na Armênia. Embora os manuscritos latinos mais antigos começassem a circular apenas no século VIII, possivelmente no século V já circulasse uma versão latina desse livro, pois um Fisiólogo latino consta da lista dos livros proibidos pelo Decretum Gelasium, do Papa Gelásio (492 – 496), como relata a pesquisadora Angela Varandas. Após o século VIII, o Fisiólogo foi vertido para vários idiomas, como anglo-saxônico, árabe, islandês, provençal, castelhano e italiano, e começaram a ser produzidas as muitas versões latinas que, além de outros manuscritos, originou os bestiários dos séculos XII, XVIII e XIV, cujo desenvolvimento coincide com o das bibliotecas monásticas, sem que se possa indicar autoria única, pois, para sua elaboração, eram necessários o copista, o tradutor, o revisor, o iluminador, entre outros. 

Os bestiários conquistaram prestígio principalmente na Inglaterra, em manuscritos em latim, como os mais famosos: Book of Beast e The Aberdeen Bestiary, ambos do século XII, aproximadamente. Mas também existiram os produzidos na França, com traduções em vernáculo do Fisiólogo latino – como os bestiários de Philippe de Thaon, Guillaume Le Clerc, Pierre de Beauvais e Richard de Fournival. A popularidade desses livros se deve, sobretudo, ao neoplatonismo na cultura medieval, caracterizando-se como um livro híbrido: naturalista, maravilhoso, exegético, didático e alegórico. Santo Agostinho, um dos primeiros teólogos e filósofos do cristianismo, estabelecendo relações entre o mundo natural e material e o mundo essencial e divino, considerava que os bestiários, com sua forma alegórica, contribuíam para ensinar contra os perigos dos pecados e dos vícios e, assim, glorificar o Senhor e atingir a Verdade divina.

Com os avanços científicos do Renascimento europeu, especialmente sobre a concepção antropocêntrica do mundo e a invenção da prensa de tipos móveis que propiciou a disseminação do livro impresso e imagens mais realistas, os bestiários medievais foram perdendo sua função original, mas continuaram inspirando renascentistas, como o polímata florentino Leonardo Da Vinci, autor de Bestiário, fabulas e outros escritos (póstumo). No século XX, o escritor francês Guillaume Apollinaire, publicou O bestiário ou o cortejo de Orfeu (1911) e o argentino Jorge Luis Borges, O livro dos seres imaginários (1968). Neste século, a escritora britânica J. K. Rowling lançou Animais fantásticos & onde habitam (2001), e o canadense Tony Allan, The mythic bestiary: The illustrated guide to the world’s most fantastical creatures (2008). A palavra “bestiário” continua sendo usada em referência a monstros, em videogames, por exemplo. A interação texto e imagem daqueles manuscritos iluminados originaram os livros ilustrados e, entre outros processos de reprodução de imagens, as xilogravuras, como nos folhetos do cordel do Nordeste brasileiro, em que a tradição dos bestiários medievais continua presente, com sereias, dragões e outros seres fantásticos. Daqueles livros das bestas também se originaram mitos incorporados definitivamente ao imaginário popular e à simbologia das artes, como a fênix que renasce das próprias cinzas. E confesso: o assunto deste texto me inspirou a também escrever meu Bestiário amoroso. Devidamente iluminado.

Maria Mortatti – 04.08.2023   

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