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REENCONTRO COM DE AMICIS EM SEU "CORAÇÃO" / MARIA MORTATTI

Edmondo De Amicis (21.10.1846 – 11.03.1908), jornalista, escritor e militar italiano de Oneglia, é autor de obra com mais 60 títulos – entre romances, relatos de viagens, artigos e outros gêneros –, que ficaram obscurecidos pelo sucesso editorial de Cuore, libro per i ragazzi (Coração, livro para meninos), lançado em 1886, pela editora Treves, de Milão. Em poucos meses, o livro alcançou 40 edições e, três anos depois, 98 edições, seguidas – até os dias atuais – de muitas outras, de traduções para várias línguas e adaptações em em livros, filmes e peças de teatro. Cuore consagrou o autor, que se tornou um dos mais lidos na Itália, e o livro, um dos mais populares clássicos da literatura escolar e infantil mundial. No Brasil, também teve várias traduções e serviu de inspiração para adaptações por autores de livros de leitura escolar e de literatura para crianças.

No prefácio, o autor informa que o livro é dedicado às crianças entre 9 e 13 anos de idade e foi composto com anotações de um aluno do terceiro ano de uma escola pública de Turim, durante um ano letivo (outubro a julho, com férias de dois meses, conforme calendário europeu). Foram, depois, escritas pelo pai “tentando não alterar o pensamento e preservar, tanto quanto possível, as palavras do filho”, o qual, mais tarde, também acrescentou “algo de sua autoria”. A narrativa está dividida em 10 partes – correspondentes a cada mês letivo –, cada uma contendo uma sequência de textos, precedidos de títulos e data, à semelhança de um diário, em que o menino Enrico Bottini relata acontecimentos da rotina escolar, apresenta o professor e os colegas, entremeando com suas reflexões e cartas do pai, da mãe e da irmã, contendo advertências e conselhos, e com o “conto mensal” sobre bondade, coragem, patriotismo, narrado pelo professor. Publicado três anos depois de Le avventure di Pinocchio, de Carlo Collodi – outro clássico a literatura infantil universal – a inovação de Cuore consistiu em dar voz ao protagonista criança, embora a voz do adulto se sobreponha, com conselhos educativos e pedagógicos, carregados de comovente sentimentalismo e ideias morais, patrióticas e nacionalistas, conforme as finalidades pedagógicas e o compromisso cívico do autor de fomentar, no contexto do pós-Risorgimento – movimento de unificação da Itália entre 1815 e 1870 – os ideiais de unidade e identidade nacional e cultural da nação. 

No Brasil, o livro teve várias traduções, além da provável circulação de edições portuguesas e das muitas adaptações. As primeiras traduções brasileiras foram publicadas em 1891, pela Francisco Alves (RJ), com o título Coração e tradução “autorizada, feita da 101ª edição italiana” pelo jornalista, crítico literário, filólogo, historiador, pintor e tradutor João Ribeiro (1860 – 1934), membro da Academia Brasileira de Letras (ABL); e pela Teixeira e Irmãos (SP), com tradução e prefácio do jornalista, escritor e poeta Valentim Magalhães (1859 – 1903), um dos fundadores da ABL. Seguiram-se outras traduções por outras editoras do País, ao longo do século XX, até a mais recente, de 2011, pela Cosac Naify, com tradução de Nilson Moulin. Principalmente entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, Coração foi aprovado e adotado oficialmente e circulou amplamente como livro de leitura em escolas primárias do País. É rememorado com emoção por alunos e professores da época, como nos depoimentos citados pelo historiador Leonardo Arroyo. para autores brasileiros de livros de leitura para crianças, como Júlia Lopes de Almeida, João Simões Lopes Neto, Romão Puiggari, Arnaldo de Oliveira Barreto, Viriato Correa e Thales de Andrade, como apontam pesquisadores da história da literatura infantil e da educação brasileiras, que se dedicam ao estudo da obra e sua circulação.

Apesar do instantâneo e duradouro sucesso editorial, Cuore/Coração nunca mereceu apreciações positivas da crítica literária. Mas, passados o já longínquo contexto político e geográfico e os propósitos que o originaram, continua vivo na memória dos leitores e nas histórias de leitura que deixaram registradas. Não o li no curso primário, apesar de terem circulado edições da Francisco Alves até os anos 1960, e da Tecnoprint, até os anos 1970. Conheci-o nos anos 1980, em acervos documentais durante minhas pesquisas sobre história da literatura infantil. Em 2010, ganhei de Fernando Oliveira – que o adquiriu em sebo mineiro – um exemplar da 30ª. edição, de 1919, pela Francisco Alves, com capa dura, edição “cuidadosamente corrigida” e sem o prefácio original do autor. Na folha de rosto e na folha de guarda ao final do livro, dois nomes manuscritos com caneta tinteiro, de alunos que o utilizaram há um século: Genésio Machado Goulart e Eloy Mendes, este seguido pela data “1 de Janeiro de 1921”, na folha de rosto, e pela data “13 de Junho de 1920”, na folha final. Afora a provável confusão na indicação do ano, tudo indica que Eloy leu o livro e se inspirou no tom de diário para indicar seu percurso de seis meses de leitura. E, ao menos para os dias atuais, é curioso que, além de alguns pequenos borrões de tinta, essas sejam as únicas marcas de leitura nas 278 páginas do livro. Ou porque não pertencia a nenhum deles, podendo ser emprestado a outros depois de utilizados nas aulas de leitura, ou porque essa não era uma prática permitida pelos professores, ou, mais provavelmente, porque o efeito comovente da leitura tornasse o livro uma espécie de objeto sagrado a ser preservado na memória dos leitores, como Genésio e Eloy. Aqueles meninos se foram, mas continuam propiciando reencontros – como este – com De Amicis e a obra que o consagrou no coração da história da literatura para crianças. As do século XXI também?

Maria Mortatti – 28.11.2023
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KENNEDY, HUXLEY E AS BALAS DE LSD DO ANO DE 1963 / JOÃO SCORTECCI

Das distopias do dia 22 de novembro de 1963. Kennedy (John Fitzgerald Kennedy, 1917 – 1963), Presidente dos Estados Unidos da América, foi assassinado na cidade de Dallas, Texas, com um tiro na garganta e outro na cabeça, e Huxley (Aldous Leonard Huxley, 1894 – 1963), em Los Angeles, com uma injeção “amiga” de LSD. Huxley foi editor da revista Oxford Poetry e publicou contos, poesias e literatura de viagem. Foi indicado sete vezes para o Prêmio Nobel de Literatura, mas nunca ganhou a merecida e cobiçada estatueta. Foi um desbravador da literatura e da consciência humana. Autor de clássicos imortais, como o romance distópico "Brave New World" ("Admirável Mundo Novo"), de 1932, e dos ensaios autobiográficos "The doors of perception" ("As portas da percepção"), de 1954, explorou o uso de alucinógenos como a mescalina, o LSD e outros psicodélicos, a fim de expandir a consciência e descobrir novos horizontes do pensamento humano. A experiência com drogas psicodélicas foi tão importante para Huxley, que o autor planejou deixar a vida em uma viagem de LSD, e, com a ajuda de sua esposa, assim o fez. Conheci-o nos anos 1980, quando li e reli a sua obra. Na biografia do verso de capa, o ano de sua morte: 1963! Na época passou “batido” e somente agora registro a distopia: Huxley morreu no mesmo dia que Kennedy! Onde eu estava mesmo? Na cidade de Fortaleza, no Ceará, na sala de visitas da casa da Dóris Holanda, mãe dos amigos de uma vida inteira: Leda Maria, Nelson, Alexandre, Guilherme, Raul e Paulinho. Estávamos brincando no chão, colando figurinhas de jogadores de times de futebol do Santos, de Pelé, do Botafogo, de Garrincha e outros. Panela com grude, para colar as figurinhas, e trapos de pano, para limpar a sobra de cola. Foi quando o plantão do radiojornalismo "O Seu Repórter Esso" nos alertou sobre a tragédia. “Escuta! Escuta!” Kennedy – o 35°. Presidente dos Estados Unidos – havia sido baleado e morto em um atentado na cidade de Dallas, Texas. Silêncio. Eu tinha sete anos de idade e, desde aquela época, sabia “conjugar” a máxima preferida – de uma vida inteira – do meu pai, Luiz: “A vida é desleal e desumana”. “E agora?” Utopias, distopias, balas de LSD, alucinógenos e figurinhas carimbadas de um admirável mundo novo. Lembro-me de tudo como se fosse hoje. Mesmo sobre Huxley: sabia e não sabia! Só precisava me adiantar no tempo, olhar no calendário do futuro e viajar no compasso-luz da história. 

João Scortecci

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BERTOLT BRECHT – OS IMPRESCINDÍVEIS / JOÃO SCORTECCI

Releitura do poema “Os que lutam”, do dramaturgo e poeta alemão, Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht, 1898 – 1956), sem ironia, sem deboche e nada parecido com o original. Paródia? Tragicomédia? Talvez. Há homens que lutam vez por outra e são ruins. São mutáveis frente ao bem. E, também, deltas, variantes, abismos. Alguns navegam sem rumo ou qualquer direção. São mutantes do incerto. Há homens que são oportunistas e egoístas. É o que são. Não conhecem o norte e não usam bússolas. Não pensam. Acham que são imortais. Há homens do exército dos que lutam e não são soldados. São traços, rabiscos da paisagem morta! Há homens que são bondosos. Apenas isso. Há outros que travam “moinhos de vento” e são os piores. Há aqueles que escrevem histórias, leis e valores e são indiferentes ao julgar o verbo. Poetas? Poucos. Há homens que são guerreiros da luz. Iluminados! Há homens covardes de coragem, traidores, contraditórios e pífios: no olhar. São sombras e testemunhas. Veem e não enxergam. Neles não há o fogaréu. Não há a brasa dos infernos e nem o mantra do carvão. Há homens que não são nada, e outros, tudo! Há homens que lutam toda a vida da sorte. Aventureiros? Há homens que são imprescindíveis à dor. Estes são homens e gritam por justiça. Há homens que cortam o fio da própria carne. E, pálidos, sangram. Há homens de Brecht em todo o infinito do Céu: do bem e do mal. E no mar, também. Profundo e acolhedor. E no ar da Terra. Desigual, perene e bela. Texto, contexto e (sem)fim. Bertolt Brecht foi um destacado dramaturgo e encenador alemão do século XX. Seus trabalhos artísticos e teóricos influenciaram o teatro contemporâneo. Em 1954, recebeu o Prêmio Lenin da Paz. Faleceu em 14 de agosto de 1956, aos 58 anos de idade, em Berlim Leste, Estado de Berlim, na República Democrática Alemã.

João Scortecci 

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O EXÍLIO E O REINO DE UMA (IM)PROVÁVEL LEITORA DE CAMUS / MARIA MORTATTI

 Para Rosina Longo Mortatti (in memoriam)

Franco-argelino, de origem pobre, apaixonado por futebol, tuberculoso crônico, combatente na Resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial, casado com a linda e talentosa franco-argelina, professora de matemática e pianista Francine Faure (6.12.1914 – 24.12.1979) – sua segunda esposa e que organizou as edições póstumas de sua obra –, amante de outras e da “única”, a atriz espanhola exilada na França, María Casares: esse era o escritor, filósofo, dramaturgo e jornalista, Albert Camus (7.11.1913 – 4.1.1960) que morreu com 46 anos de idade, vítima de um acidente de automóvel, às 13h55 do dia fatal, quando retornava a Paris, após ter trocado passagem de trem e aceitado insistente oferta de carona do amigo e editor Michel Gallimard, cujo carro perdeu a direção e se chocou contra uma árvore, causando também sua morte cinco dias depois, tendo se salvado apenas a esposa e a filha do editor e parte do manuscrito do romance autobiográfico inacabado, O primeiro homem, que Camus carregava na mala e foi publicado em 1944, por sua filha, Catherine Camus, que também fez publicar, pela Gallimard, em 2017, as 865 cartas de amor do pai para a atriz espanhola, a última delas escrita cinco dias antes de ele morrer. Laureado, aos 44 anos de idade, com o Nobel de Literatura de 1957, “pela sua importante produção literária, que com seriedade lúcida ilumina os problemas da consciência humana nos nossos tempos”, Camus é autor de vasta e diversificada obra, com romances, peças de teatro, ensaios filosóficos, entre outros, em que expõe e questiona o absurdo da condição humana e o paradoxal sentido da existência, como: nos romances O estrangeiro – seu primeiro do gênero, de 1942 –, A pesteA queda; nos ensaios O mito de Sísifo e O homem revoltado – este com duras críticas ao estalinismo, que lhe renderam polêmica pública com o filósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre (21.06.1905 – 15.04.1980) –; nas peças de teatro Calígula e Os justos.

Esse era o roteiro do texto que eu preparava, até o momento em que, procurando Camus na estante de minha biblioteca, perdi a direção e topei com um exemplar de O Exílio e o Reino, publicado pela Edições Livros do Brasil – Lisboa, com pouco convidativa tradução por Cabral do Nascimento, sem data. Lançado na França pela Gallimard, em 1957 – ano em que o escritor recebeu o Nobel – L'Exil et le Royaume é seu único livro de contos e seu último livro de ficção publicado em vida. A edição portuguesa, provavelmente publicada nos anos 1960, contém seis contos – “A mulher adúltera”, “O Renegado”, “Os mudos”, “O hóspede”, “Jonas”, “A pedra que aumenta” (“cresce”, em outras traduções) –, cujos enredos se passam em lugares diferentes, como África, Europa e o último, no Brasil. A temática comum entre eles, expressa no título e identificável nas descrições do narrador e nos monólogos interiores e diálogos dos personagens, são as formas simbólicas do exílio – como solidão, insatisfação, inadaptação, impotência e culpa dos que se recusam a representar o papel que lhes é atribuído socialmente – e da árdua busca do reino prometido, o sentido da existência. Nas palavras do autor, o Reino “coincide com uma certa vida livre e despojada que teremos de reencontrar, para podermos enfim renascer. O Exílio, de certo modo, mostra-nos as vias de acesso a essa outra vida, desde que saibamos nele recusar ao mesmo tempo a servidão e a posse.” 

Folheando o exemplar com folhas amareladas e algumas manchas do tempo, chamou minha atenção a marginalia a lápis, à qual provavelmente não dei tanta importância quando o recolhi entre os pertences pessoais de minha mãe, após sua morte, em 2008: o nome – Rosina – na folha de rosto e os muitos sublinhados em trechos do primeiro e do último conto, além de dobraduras de “orelha” no topo das respectivas páginas iniciais. No primeiro conto, “A mulher adúltera”, Marcel e Janine, um casal de franceses, sem filhos, viaja por regiões de deserto para vender tecidos diretamente aos mercadores árabes. Ela o acompanha, entediada, por falta de coragem para recusar, e, ao longo do enredo, por meio de monólogos interiores, vai se configurando sua insatisfação e a crise existencial. O adultério se realiza simbolicamente, quando ela, mirando a imensidão e a beleza do deserto em contraste com seu vazio interior, dá-se conta de seu exílio – a vida sem sentido com o marido – e daquele reino que “sempre lhe fora prometido, mas que jamais o alcançaria – a não ser por este fugidio instante...”.  O último conto, “A pedra que aumenta”, foi inspirado em visita de Camus ao Brasil, em 1949, quando, levado por uma comitiva de que participavam Oswald de Andrade e seu filho, Rudá de Andrade, à cidade de Iguape, no litoral paulista, para conhecer a festa de Bom Jesus de Iguape, ficou impressionado com a diversidade e mistura de raças, com o sincretismo religioso, com a história da estátua do santo que foi encontrada num córrego e da pedra em que foi lavada, que crescia, mesmo depois de inumeráveis lascas arrancadas pelos romeiros em busca de milagres. Camus juntou depois essas observações com as da macumba que presenciou na cidade do Rio de Janeiro, acompanhado de Abdias do Nascimento. O protagonista do conto, d’Arrast, um engenheiro francês contratado para supervisionar a construção de uma represa em Iguape, surpreende-se com o sincretismo religioso, participa de culto em homenagem a São Jorge e ajuda um homem pobre e negro a cumprir a promessa de carregar uma pedra de 50 quilos, para agradecer por um milagre recebido do Bom Jesus.

No livro Albert Camus – Uma vida, relatando o acidente que causou a morte instantânea do escritor, o biógrafo Olivier Todd comenta: “A seus amigos, Camus dizia com frequência que nada era mais escandaloso do que a morte de uma criança e nada mais absurdo do que morrer num acidente de automóvel”. Quando folheei aquele exemplar de O Exílio e o Reino, inicialmente me pareceu meio absurdo que aquela mulher – não muito afeita à leitura e com pouco ou nenhum tempo disponível para esse tipo de lazer, depois do trabalho de professora e das tarefas domésticas, de esposa e mãe de quatro filhos – tivesse lido o livro e se interessado especialmente por esses dois contos. E me indaguei como o exemplar chegara a suas mãos. Teria sido pelo espólio de minha tia paterna, Irene, viúva de um livreiro paulistano, que não conheci? Ou de algum vendedor domiciliar, como alguns poucos livros que minha mãe comprava? E por que esses dois contos a impressionaram tanto, a ponto de neles deixar registrada a enigmática marginalia? Depois, porém, de reler os contos e escrever este texto, concluo que absurda foi minha primeira reação. Aquela (im)provável leitora provavelmente encontrou nos contos muitas de suas indagações sobre o paradoxal sentido da existência, entre a constatação do exílio solitário e a fé no reino prometido. Também eu. Essa é a universal contribuição de Albert Camus, para leitores e leitoras de todos os tempos.

Maria Mortatti – 19.11.2023


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O LEGADO DO LIVREIRO LEON IDZIKOWSKI / JOÃO SCORTECCI

O livreiro, editor e gráfico Leon Idzikowski (1827 – 1865), nasceu na Cracóvia, Polônia. Foi o fundador da maior e mais famosa livraria e editora de Kiev e de toda a Rússia, localizada inicialmente na Avenida Kreschatik, a principal da cidade de Kiev, hoje capital da Ucrânia. Em 28 de dezembro de 1858, aos 31 anos de idade, Leon Idzikowski abriu o seu negócio, no cortiço n. 29, depois expandiu para os lados, nos números 27 e 33-35, perto da atual estação Kreschatik, em Kiev. Foi aprendiz na livraria J. Czech, em Cracóvia, e depois gerente da livraria Krystian Teofil Glücksberg (1796 – 1876), em Kiev, onde aprendeu o ofício de livreiro. Leon Idzikowski morreu jovem, aos 38 anos de idade. Depois de sua morte, o negócio foi administrado, com sucesso, durante 32 anos, pela esposa, Hersylia Idzikowski (Hersylia Buharewicz, 1832 – 1917) até 1897. Imprimiam seus próprios livros – chegaram a empregar mais de 150 funcionários –, e em pouco tempo se tornou a maior editora e livraria de Kiev. Até 1920, a empresa foi gerida por seu filho, Władysław Idzikowski (1864 – 1944). A livraria chegou a ter 50 salas e era composta por vários departamentos: postais e reproduções, livros polacos, livros russos, livros estrangeiros (alemães, franceses, ingleses, italianos), livros infantis e partituras. A sala de leitura – que podia acomodar até 500 pessoas ao mesmo tempo – e a biblioteca de empréstimo tinham mais de 173.000 volumes. Entre 1865 e 1920, a empresa publicou aproximadamente 7.000 títulos. A família Idzikovsky também possuía armazéns e livrarias menores em outras cidades: Lviv, Odessa, Kharkov e Yekaterinoslav, na Ucrânia; Vilnius, na Lituânia; Cracóvia, na Polônia; Vladivostok, Moscou, Rostov-on-Don, São Petersburgo, na Rússia. Em 1918, com a terceira Revolução Russa e a ditadura do proletariado, pregada por Vladmir Lenin (1870 – 1924), os bolcheviques ("governo da maioria") incendiaram a livraria. O que restou foi nacionalizado em 1919. A empresa existiu até a Revolta de Varsóvia – tentativa armada em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, para libertar a cidade polonesa de Varsóvia do controle da Alemanha nazista –, quando todos os bens materiais foram queimados e destruídos pelos alemães. Leon Idzikowski está enterrado na área polonesa do cemitério de Baikovsky, em Kiev. A inscrição no monumento diz: “Leon Idzikowski, natural de Cracóvia. Viveu 38 anos e morreu em 1865. Irmão, suspire a DEUS.”

João Scortecci


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GUILLAUME APOLLINAIRE, PABLO PICASSO E O ROUBO DA "MONA LISA" / JOÃO SCORTECCI

O poeta e crítico de arte francês Guillaume Apollinaire (1880 – 1918) morreu jovem, com apenas 38 anos de idade, vítima da gripe espanhola. Considerado o mais importante ativista cultural das vanguardas do início do século XX, é conhecido por sua poesia sem pontuação e por ter escrito manifestos importantes para as vanguardas na França, tais como o do Cubismo, e de ser o criador da palavra “Surrealismo”. Apollinaire ficou mundialmente conhecido quando foi acusado de cúmplice no roubo, em 21 de agosto de 1911, do quadro “Mona Lisa”, pintado entre os anos de 1503 e 1506, pelo italiano Leonardo da Vinci (1452 – 1519), e exposto no Museu do Louvre, em Paris. O caso teve repercussão internacional, e as investigações levaram a polícia a suspeitar do poeta francês. Ele chegou a ser preso e foi mantido na cadeia por uma semana, até ser solto, por falta de provas. Seu depoimento – não há documentos sobre o que foi dito – levou a polícia a convocar, para interrogatório, o pintor espanhol Pablo Picasso (Pablo Ruiz Picasso, 1881 – 1973), como suspeito de ser o mandante do roubo, mas nada foi encontrado que o incriminasse. Em 1913, a polícia da Itália prendeu o italiano Vicenzo Peruggia, ex-funcionário do Louvre, tentando vender clandestinamente a pintura, movido – foi o que declarou – por um sentimento nacionalista. Em 1914, “Mona Lisa” foi reintegrada ao acervo do Louvre. Historiadores e cientistas da arte afirmam que a mulher retratada é a italiana Lisa Gherardini (1479 – 1542), nascida em Florença, e que seu marido, Francesco del Giocondo, foi quem encomendou a obra. “Mona Lisa” é, muito provavelmente, a obra de arte mais famosa da história ocidental. Mede 77 cm de altura por 53 cm de largura e foi levada para a França pelo próprio Leonardo da Vinci, quando morou naquele país e trabalhou na Corte francesa. Foi vendida para Francisco I, rei da França entre os anos de 1515 e 1547, que teria pagado pela obra uma quantia bastante elevada: cerca de 4.000 táleres de ouro. O poeta Guillaume Apollinaire morreu em 1918, quatro anos depois que “Mona Lisa” voltou para o Louvre. Está sepultado no cemitério de Père-Lachaise, em Paris, tendo no seu túmulo uma escultura em forma de menir, monumento megalítico, feito por Pablo Picasso. 

João Scortecci


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MOMENTOS LITERÁRIOS / MARIA MORTATTI

Momento literário era o título da revista do CEL – Centro de Estudos de Letras da FCLA – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara/SP (encampada pela Universidade Estadual Paulista em 1976), onde me licenciei em Letras – Português-Inglês, em 1975. Naquele ano, candidatei-me à presidência do CEL em uma chapa composta por cinco mulheres e um homem. Além de mim, participavam as estudantes Regina Céloia Vieira, Maria Rita Mantese, Luiz Gonzaga Marchezan, Suely do Carmo Máscia, e a bibliotecária Guaraci Maria Nogueira; no conselho editorial, estavam os professores Dante Tringali e Fernando de Carvalho e as estudantes Elisabete de Carvalho e Elizabeth Rocha Leite.

Depois de intensa campanha, nossa chapa foi eleita e, pelo que me lembro, fui a primeira mulher a assumir essa função, o que não era pouca coisa para a época. O curso de Letras, frequentado predominantemente por mulheres, era chamado de “espera marido”, preconceito que infelizmente ainda persiste. E, naqueles tempos sombrios da ditadura militar no Brasil, nós, as “moçoilas casadoiras”, éramos acusadas de “alienadas” politicamente, sobretudo pelos estudantes dos cursos de Ciências Sociais e Filosofia. A vitória de nossa chapa nos impunha, então, redobrada responsabilidade para provar competência. Assim fizemos! Entre outras atividades literárias e culturais, editamos boletins e os quatro números trimestrais da revista correspondentes ao ano de 1975. Eram publicados ensaios, resenhas e textos literários de professores e estudantes. O trabalho de edição era manual: os textos eram datilografados – fiz esse serviço quase sempre – na sede do CEL, no subsolo do pátio do campus universitário, para onde foi transferida a faculdade, que até então funcionava no prédio do centro da cidade, na Rua 3, que depois abrigou a Casa da Cultura Luís Antônio Martinez. Os volumes da revista, com média de 50 páginas de tamanho ofício, eram impressos e encadernados na gráfica da faculdade, com capa em papel cartonado e como publicação oficial da FCLA. Não me lembro da quantidade de exemplares por edição e se eram distribuídos gratuitamente. Mas eram lidos e comentados. E nos orgulhávamos da qualidade da revista e dos boletins. Guardo comigo exemplares que foram úteis para comprovar minhas primeiras atividades editoriais e poéticas, desde aqueles tempos. E também como aprendizado e inspiração para organização, edição e impressão (em mimeógrafo) de revistas e jornais com meus alunos da educação básica, para preparação de meus livros e artigos e para a realização de serviços de revisão editorial e preparação de originais para publicação. 

Revisitei o CEL em 24.08.2016, durante as atividades da campanha como candidata à Reitora da Unesp – se tivesse sido eleita, teria sido também a primeira mulher e da área de humanidades na reitoria da universidade, o que não ocorreu, apenas por causa do peso proporcional não paritário dos votos de cada segmento de eleitores. O CEL continua em funcionamento, no mesmo local, com a denominação Centro Acadêmico de Cultura e Estudos em Letras "Paulo Leminski”. Não sei se ainda editam revista e boletins. Mas as lembranças continuam vivas e foram despertadas pela leitura do post do professor e escritor Paulo Franchetti, colega de turma na graduação e depois no mestrado em Teoria Literária no Iel/Unicamp. Ele comentou sobre a publicação de seu “primogênito” paper sobre literatura portuguesa naquela revista, em 1974. Procurando o exemplar em minha estante, encontrei meu “primogênito” poético, “Cantiga”, poema inspirado em Cecília Meireles, publicado no número 9, de agosto/setembro de 1974, quando eu tinha 19 anos e estava no 3º. ano do curso. Já lá vão os primeiros 49 anos de editoria e poesia. E memoráveis momentos literários.

Maria Mortatti – 14.11. 2023 

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PARA GOSTAR DE LER, É SÓ COMEÇAR / MARIA MORTATTI

Quem nunca? Ao menos entre os que frequentaram escola a partir dos anos 1970, quem nunca leu um, alguns ou todos os volumes da coleção Para Gostar de Ler e se encantou com a descoberta ou releitura de tantos grandes escritores brasileiros? Essa coleção, lançada pela editora Ática em 1977 e encerrada em 2013, era destinada aos anos finais do ensino de 1o. grau e ensino de 2o. grau, e nela foram publicados crônicas, contos, poemas. Com as séries Bom Livro – de clássicos da literatura brasileira e portuguesa – e Vaga-Lume – livros de literatura para jovens –, a coleção Para Gostar de Ler compôs exitosa estratégia editorial da Ática, originada da impressão em mimeógrafo de apostilas didáticas para o Curso de Madureza Santa Inês, da cidade de São Paulo. Sob a direção do editor e professor Jiro Takahashi (22.11.1947 –  ), que se tornou uma “lenda” no mercado editorial, essas iniciativas arrojadas e pioneiras contribuíram para consolidação das expressões “paradidático” e “leitura extraclasse”, em referência ao produto editorial e o correspondente modo e espaço escolar de circulação de textos literários. Contribuíram, ainda, para a divulgação da produção literária brasileira e para programas de incentivo à leitura e à formação de leitores, no contexto das políticas educacionais e culturais decorrentes das mudanças estabelecidas pela lei n. 5.692/1971, que tornou obrigatório o ensino de oito anos.

Como conta Jiro Takahashi em entrevistas já antológicas, a história da coleção Para Gostar de Ler começou em 1976, com uma conversa telefônica entre ele e o poeta, escritor e professor Affonso Romano de Sant’Anna, que mencionou um comentário do escritor Rubem Braga sobre o fato de suas crônicas estarem presentes em livros didáticos, serem lidas por estudantes, mas seus livros venderem pouco. Tentando entender o motivo, “começamos a pensar em reunir as crônicas mais lidas pelos estudantes em livros concebidos para que eles gostassem de ler. Além da qualidade dos autores, um ponto que foi fundamental, a meu ver, para a grande aceitação da coleção foram as leituras experimentais que fizemos com três mil estudantes. Para cada volume, editávamos uma edição experimental com o dobro de crônicas que fariam parte do volume, e os estudantes escolhiam as que davam mais prazer em ler. Foi uma coleção feita em colaboração com o público a que se destinava. Isso pode explicar a sua grande aceitação.” Os professores de 1o. e 2o. graus recebiam exemplares gratuitos – ainda tenho os meus – e cada volume era acompanhado de um suplemento de trabalho, informações sobre a coleção e sua finalidade – “levar o aluno a incorporar o gosto e o hábito de ler” –, comentários e questões abertas sobre assuntos dos textos, sugestões didáticas e resumos biográficos dos autores. Na carta-apresentação do volume 1, dirigida ao “amigo estudante” e assinada pelos quatro cronistas que inauguram a coleção – Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga –, reitera-se a finalidade de não “ensinar coisa alguma a você. Nem gramática nem redação nem qualquer matéria incluída no programa de sua série.” A tiragem desse volume foi de 100 mil exemplares, seguidos de reimpressão de mais 150 mil.

Entre 1977 e 2013, foram publicados 47 volumes, com inclusão de outros gêneros, subgêneros e assuntos e com atualizações nos projetos gráficos. Nos cinco volumes iniciais, permaneceram os mesmos cronistas. No volume 6, foram publicados poemas de José Paulo Paes, Henriqueta Lisboa, Mario Quintana e Vinícius de Moraes. Seguiram-se volumes de crônicas e contos, com outros grandes escritores brasileiros e universais. Para se ter uma ideia da importância e alcance do projeto, constavam autores, tais como: Luís Fernando Veríssimo, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Ignácio de Loyola Brandão, Lygia Fagundes Telles, Mario de Andrade, Marcos Rey, Machado de Assis, Affonso Romano de Sant’Anna, Rachel de Queiroz, Murilo Rubião, Marina Colasanti, Domingos Pellegrini, Dalton Trevisan, Moacyr Scliar, Ferreira Gullar, Cacaso, Paulo Leminski, Stanislaw Ponte Preta, Millôr Fernandes, Mark Twain, Edgar Allan Poe, Franz Kafka, Miguel de Cervantes, Conan Doyle, William Shakespeare, Voltaire. É ainda nessa coleção, no volume 5, que está publicado o também antológico ensaio-prefácio “A vida ao rés-do-chão”, do crítico e professor Antonio Candido, com um estudo analítico sobre o gênero crônica. A coleção era um "luxo", como comentávamos entre professores.

Enquanto escrevia este texto, lembrei-me das tantas vezes em que, no início das aulas e por pura diversão, lia para meus alunos crônicas, poemas e contos dos livros que eu recebia da editora. De um dos mais hilariantes momentos, lembrei-me agora: a leitura da crônica “Emergência”, de Luís Fernando Veríssimo, sobre o medo de avião de um passageiro de primeira viagem. Tantas vezes a li, tantas vezes choramos de tanto rir. Eu, com o livro aberto de frente para os alunos. esforçando-me para não interromper a leitura com repetidos engasgos nos risos lacrimejantes e mal disfarçados; eles, ouvindo curiosos e também tentando esconder o riso. Ao final, todos libertando as gargalhadas, aplaudíamos o também antológico pouso-desfecho de Veríssimo: “– Senhores passageiros, aqui fala o comandante Araújo. Neste momento, à nossa direita, podemos ver a cidade de... [O passageiro] pula outra vez da cadeira e grita para a cabina do piloto: – Olha para a frente, Araújo! Olha para a frente!”. 

Para Gostar de Ler representou irrecusável convite: conhecer autores e textos aos quais a maioria dos estudantes e provavelmente também dos professores tiveram acesso pela primeira vez. De forma direta ou indireta, os textos e os autores se tornaram conhecidos por leitores de primeira viagem ou veteranos e continuam vivos em sua memória e na história da educação e da cultura brasileiras. Formar leitores, dentro e fora da escola, continua sendo emergência nacional. Mas essa coleção cumpriu sua finalidade e deixa uma antológica lição: para gostar de ler, é só começar. E com textos de qualidade, que sejam acessíveis e enredem o leitor. Quem nunca leu ou desejou ler livros como esses? 

Maria Mortatti – 12.11.2023

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O SOFÁ DO NADA DO POETA MANOEL DE BARROS / JOÃO SCORTECCI

Tudo ou nada, na direção de Manoel de Barros, o poeta. Quero o nada e depois o tudo, sentar-me, indolente, e lá permanecer, por séculos. Isso basta, o bastante. Manoel de Barros (1916 – 2014) nasceu em Cuiabá, estado do Mato Grosso, e aos 13 anos de idade se mudou para Campo Grande, hoje Mato Grosso do Sul. Lá, ficou – quase – sempre. Escreveu o “Livro sobre nada”, de 1996, obra que eu gostaria de ter escrito. Belíssima! Falar sobre o nada, sempre me ocupou profundamente. Gosto da ternura do nada, inexistente, selvagem e mortal. No nada não há dor e nem medo. Somente solidão! No meu livro de poemas “Água e sal – Fragmentos de tempo algum”, de 1990, prefaciado pelo mineiro Fábio Lucas, poetei alguns poucos versos sobre o nada. Ficou, na época, a promessa de, um dia, cutucar novamente o assunto e, então, talvez, escrever. Ficou. Tenho até um provável título: “Nada de alguém”, quase isso. Manoel de Barros é absoluto. Escreveu: “Uso a palavra para compor meus silêncios.” "O nada do meu livro é nada mesmo.". Não o conheci pessoalmente. Uma pena! Trocamos assobios, passarinhos, bilhetes e livros. Nunca tempestades! Mais um dos descuidos literários, de tantos, em 50 anos. Perdi – não me conformo – os passarinhos de Quintana, a vida Severina, de João Cabral, e o “Poema sujo”, de Ferreira Gullar. Não adianta me justificar por nada – eu os perdi, e pronto. Os poetas são malvados: gostam de travessuras, piruetas e castigos. São serpentes! Morrem do nada – alguns, várias vezes –, não vão embora, não se despedem, nunca. Ficam nos azucrinando, nos marcando com palavras, bocas e cheiros. Os poetas são grudentos! Drummond – o anjo torto do céu – recusou o epíteto de “maior poeta vivo do Brasil”, em favor de Manoel de Barros. Grande Drummond! Manoel de Barros morreu no nada, aos 97 anos de idade, lendo, provavelmente “Poemas concebidos sem pecado”. Fica aqui – registrado – o meu desafio: quando publicar o livro “Nada de alguém”, será em sua homenagem, com dedicatória e nada. Na agenda, visitar Manoel de Barros, sentar-me, então, ao seu lado, no seu sofá de bronze. Manoel, licença! Posso? Eu venho de longe, do nada, estou atrasado. Perdoe-me.

João Scortecci

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PÉ DE CEBOLINHA VERDE E UM LUGAR PARA TODAS AS COISAS / JOÃO SCORTECCI

Nos anos 1960 – menino de tudo – resolvi plantar um maço de cebolinha verde no quintal de casa. “Planta que nasce novamente!” Foi o que me disseram. Curioso que sou, obedeci. Peguei uma enxada e comecei a cavar e a revirar a terra. Na verdade, cavei um buraco, dos grandes. Papai Luiz – que apareceu do nada – perguntou-me: “O que você está fazendo?”. “Uma horta!”, respondi. “E esse buraco?” Não respondi. Continuei cavando e jogando a terra no monte, ao lado. Ele se acocorou e – pacientemente – esperou por mim, até eu respirar e ouvir. “Filho, duas coisas são importantes na vida. A primeira é de ordem prática, para todas as coisas que você for fazer. Escolha o propósito, execute a tarefa e, depois, conclua com êxito”. Interessante, pensei. “E a segunda?” “A segunda é de ordem moral: antes de tirar algo do seu lugar, certifique-se, primeiro, onde irá colocá-la!”. Papai Luiz se levantou e, em silêncio, partiu. Eu, reflexivo, com a enxada, devolvi toda a terra de volta para o buraco. Plantei o maço de cebolinha verde, molhei a terra e a entreguei ao deus Sol, na sorte das minhas lembranças. Pesquisando sobre algoritmos, encontrei a biografia do matemático, astrônomo, astrólogo, geógrafo e escritor persa Alcuarismi (Abu Abdalá Maomé ibne Muça ibne Alcuarismi, 780 – 850), erudito na Casa da Sabedoria (ou Casa do Saber), biblioteca e centro de traduções estabelecido à época do Califado Abássida, em Bagdá, no Iraque. No seu livro “Da Restauração e do Balanceamento”, Alcuarismi apresentou a primeira solução sistemática das equações lineares e quadráticas. É considerado o fundador da Álgebra – junto ao matemático grego Diofante, de Alexandria. O radical das palavras “algarismo” e “algoritmo” vem de “algoritmi”, a forma latina do nome do erudito persa. Além do vocábulo português “algarismo”, seu nome deu origem ao espanhol “guarismo”, que, ao passar para o francês, tornou-se “logarithme” e deu origem ao termo moderno “algoritmo”. O conceito de "catálogo de biblioteca" foi introduzido nessa e em outras bibliotecas islâmicas medievais, nas quais os livros se organizavam por gêneros e categorias específicas. A incógnita nas equações algébricas era denominada pelos matemáticos muçulmanos como “xay” (“coisa”), notadamente na álgebra de Ômar Khayyam, que, ao ser transcrita “xay” pelos espanhóis, deu origem ao “X” da álgebra moderna. A Casa do Saber foi destruída durante o cerco de Bagdá, em 1258, pelos mongóis. Antes do cerco, no entanto, perto de 400 mil manuscritos foram resgatados pelo polímata persa Tuci (Naceradim de Tus, 1201 – 1274) e levados para Maragha, no Irã. Em tempo: “Pai, quem disse isso?” “Um matemático russo!”, foi o que ele respondeu, na época. Quando quis saber mais, papai Luiz já estava com demência avançada e liberto do lugar de todas as coisas.

João Scortecci


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MARIE SKLODOWSKA CURIE: UMA IRRADIANTE MULHER / MARIA MORTATTI

A cientista polonesa, naturalizada francesa, Maria Sklodowska/Marie Sklodowska Curie (07.11.1867 – 04.07.1934) foi pioneira e exemplar nas muitas atividades que realizou em uma sociedade sexista e xenófoba. Ela e o marido, o físico francês Pierre Curie (15.05.1859 – 19.04.1906), descobriram os elementos químicos Rádio e Polônio – este assim denominado em homenagem à terra natal da cientista – e foi a primeira mulher laureada com o Prêmio Nobel, por duas vezes: o de Física, em 1903, compartilhado com o Pierre e Henri Becquerel; e o de Física, em 1911. Foi também a primeira mulher a se formar em Ciências na Universidade Sorbonne, na França; a primeira a obter o título de doutorado – com a tese defendida em 1903, em que descrevia detalhadamente seus esforços para compreender a origem da radioatividade; a primeira professora catedrática naquela universidade francesa; e a primeira mulher a ser sepultada por seus próprios méritos no Panteão de Homens Ilustres de Paris.

Filha de professor-cientista e de professora-diretora de escola, após ter considerado se dedicar à literatura, decidiu-se pelos estudos em física e química, motivo de sua partida para a França, uma vez que na Polônia, sob domínio russo na época, mulheres não podiam frequentar universidades. Destacou-se, ainda, pela dedicação à educação científica. Na França, além de professora na Sorbonne, lecionou em escola secundária e inovou no ensino de Física, por meio de perspectiva experimental, buscando despertar vocações científicas em crianças e mulheres. Em 1985, casou-se com Pierre Curie, por quem se apaixonou quando foi a ele apresentada por um cientista polonês em Paris. Casaram-se no civil, em cerimônia simples, ela vestida de azul-marinho, como o avental que usava no laboratório, e seguiram de bicicleta em viagem de lua de mel. Sobre Pierre, Marie escreveu: “ele dedicou sua vida ao sonho da ciência: ele sentia precisar de uma companheira que pudesse viver esse sonho com ele”. Tiveram duas filhas: Irène e Eve. Pierre morreu ao ser atropelado por uma charrete, quando atravessava a rua, num dia chuvoso. Depois da tragédia, Marie entrou em depressão, afastando-se temporariamente do laboratório onde trabalhavam juntos. No seu diário íntimo, iniciado dias depois do falecimento do marido e finalizado no ano seguinte, revela-se a faceta apaixonada da mulher que aparentava dureza, sem sorrisos nas poucas fotos disponíveis, possivelmente para enfrentar as proibições impostas às que ousavam lutar para conquistar seu lugar na sociedade, conforme o mérito de seus talentos. Durante a Primeira Guerra Mundial, prestou grandes serviços aos soldados, com suas ambulâncias radiológicas, conhecidas como "Petit curies". Com a filha Irène Joliot-Curie, que se tornou cientista e se casou com o também cientista Jean Joliot-Curie, Marie esteve no Brasil, em 1926, fazendo conferências e divulgando o uso da radiação no tratamento do câncer no Instituto do Radium de Belo Horizonte e na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Ela morreu em decorrência de anemia aplástica, com 66 anos de idade, causada provavelmente pela exposição sem proteção, durante décadas, a material radioativo com que trabalhava em suas pesquisas, numa época em que não suspeitava dos efeitos nocivos da radioatividade no organismo nem de uma das consequências diretas de sua descoberta, a energia nuclear e a bomba atômica. Foi enterrada ao lado do marido no cemitério de Sceaux e, em 1995, os restos mortais foram transferidos para o Panteão de Paris.

Uma das mais extraordinárias figuras da Física e da Química modernas, Marie Curie influenciou gerações de físcos e químicos, tendo deixado um legado científico fundamental e importantes documentos para a história da ciência. Além da tese, de cadernos de laboratório, de relatórios semanais na revista Comptes Rendus, da Academia Francesa de Ciências, de publicação de artigos em coautoria com o marido, relatando resultados das pesquisas, e dos diários, Marie publicou, em 1919, o livro Radiologia na guerra, com sua experiência como membro de comitês dedicados à causa polonesa, em 1923, a biografia de Pierre Curie, seguida de anotações de sua autobiografia, e escreveu o livro, Radioatividade, publicado em 1935 (póstumo). Todo o material que ela tocou, porém, permanece cuidadosamente guardado nos porões da Biblioteca Nacional da França, em caixas especiais com várias camadas de chumbo, por se tratar de material altamente radioativo. Também para evitar contaminação, o corpo de Marie foi enterrado em um sarcófago de chumbo com mais de 2 cm de espessura. Segundo os cientistas, deverão permanecer intocáveis por 1.500 anos, tempo necessário para a desintegração dos átomos de rádio. 

Conhecida mundialmente, foi homenageada com inúmeras honrarias e biografias, uma delas de autoria da filha Éve, em 1938, além de cinebiografias, como Radioactive, de 2019, direção de Mariane Satrapi, baseado no livro RadioactiveMarie & Pierre Curie: A tale of love and fallout, de Lauren Redniss. Madame Curie foi figura marcante para minha formação. Quando eu cursava o último ano do curso colegial, em 1970, e tive de decidir sobre a carreira a seguir, duas áreas me interessavam: Química – porque gostava da matéria e da professora, D. Terezinha Cury, que me apresentou Madame Curie; e Letras – porque gostava muito de ler literatura. Na dúvida, fiz a inscrição para exame vestibular na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, onde há os dois cursos. Aprovada, acabei optando por Letras, mas continuo gostando de Química e Física e admirando essa irradiante mulher que contribuiu para iluminar novas descobertas e tornar o mundo um lugar melhor para todos. E com quem aprendi que "Nada na vida deve ser temido; apenas deve ser compreendido" e "(...) a ciência tem uma grande beleza. Um cientista em seu laboratório não é apenas um técnico: é também uma criança colocada diante de fenômenos naturais que o impressionam como um conto de fadas”.

Maria Mortatti – 07.11.2023


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BEIJOS ROUBADOS DE CORA CORALINA E RACHEL DE QUEIROZ / JOÃO SCORTECCI

O dia em que tudo aconteceu. O beijo roubado de Anna Lins! Não foi lá nos Becos de Goiás e nem nas águas do Rio Vermelho. Foi quando Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas perdeu o medo e virou Cora Coralina. Foi no ano de 1983, na sede da União Brasileira dos Escritores – UBE, quando da entrega do Prêmio Intelectual do Ano – Troféu Juca Pato. Eu, pequenino; e ela, gigante! Curvei-me quase meio metro, para que ela pudesse me roubar um beijo de poeta. Poucas mulheres receberam o Troféu Juca Pato, outorgado pela entidade de escritores. Foi Cora Coralina – dos becos de Goiás – quem puxou a fila literária. Depois, vieram Lygia Fagundes Telles, Rachel de Queiróz, Renata Pallottini e Tatiana Belinky. Coube à escritora luso-brasileira Dalila Teles Veras lançar – contra tudo e todos – a candidatura da poeta goiana e, a duras penas, conseguir as 30 assinaturas obrigatórias, na época, para disputar o pleito. Foi um momento de ruptura importante na UBE, que fez história. Cometi o mesmo beijo – também roubado – no ano de 1992, na Rachel de Queiroz, conterrânea e amiga da Família Paula. Como meu avô paterno, João Batista de Paula, o Batista da Light, a escritora nasceu na cidade de Quixadá, no Ceará, e foi amiga de uma vida inteira. Quando soube meu nome, perguntou: “Você é neto do Batista da Light?” “Sou.” “O Batista era muito querido, estava sempre alegre e sorrindo", sentenciou ela. Rachel de Queiroz estava sentada – confortavelmente – numa poltrona na sala da diretoria da UBE, aguardando o início da cerimônia de entrega do Juca Pato. Curvei-me e a beijei, com todo o amor do mundo. Foi o nosso último e derradeiro encontro. Logo depois, Rachel adoeceu e faleceu, em 4 de novembro de 2003, na cidade do Rio de Janeiro. Beijos roubados são sempre assim: perigosos, eternos e inesquecíveis.

João Scortecci


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O MITO DE PIGMALEÃO, AFRODITE E GALATHEA / JOÃO SCORTECCI

Pigmaleão, na mitologia grega, foi um rei da ilha de Chipre, localizada na Bacia do Levante, no Mar Mediterrâneo. Segundo o poeta romano Ovídio (Publius Ovidius Naso, 43 a.C. – 17 ou 18 d.C.), em sua obra Metamorfoses, Pigmaleão – que também era escultor –apaixonou-se por uma estátua que esculpira em marfim, ao tentar reproduzir a mulher ideal. Ele havia decidido viver em celibato, por não concordar com a atitude libertina das mulheres de Chipre, conhecidas como “cortesãs”. A deusa Afrodite – figura do amor, da sedução e da sexualidade –, apiedando-se de Pigmaleão e não encontrando em toda a ilha uma mulher que, em beleza e pudor, chegasse aos pés da que esculpira, transformou a estátua numa mulher de carne e osso, de nome Galathea, com quem Pigmaleão se casou e teve uma filha chamada Paphos, que deu nome a uma cidade portuária na costa sudoeste da ilha. Habitada desde o período neolítico, Paphos tem vários locais relacionados com o culto da deusa Afrodite, por ser o local mítico do seu nascimento. O Mito de Pigmaleão traduz um elemento do comportamento humano: a capacidade de determinar seus próprios rumos, concretizando planos e previsões particulares ou coletivas. Os mitos nos ajudam a entender as relações humanas e guardam em si a chave para o entendimento do mundo. Uma versão moderna da lenda é a peça teatral Pigmaleão (1916) – com posteriores adaptações teatrais e cinematográficas – escrita pelo dramaturgo, romancista e jornalista irlandês George Bernard Shaw (1856 – 1950). Na peça, em vez de uma estátua transformada em mulher, temos uma mulher do povo transformada em mulher da alta sociedade. Shaw, socialista ardente, escreveu muitos folhetos e discursos para o Socialismo Fabiano – doutrina criada em Londres, em 1883, pela Sociedade Fabiana, que esse dramaturgo integrou – que defendia gradual evolução para o socialismo, por meio de reformas sociais, diferenciando-se dos marxistas, que pregavam uma passagem revolucionária. Afrodite, responsável pela perpetuação da vida, do prazer e da alegria, sabe o que faz. É quando você – em metamorfose – torna-se aquilo que pensa ser, condoendo-se de compaixão, tragédia e amor.

João Scortecci

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CONSELHOS DE BOILEAU SOBRE A ARTE DE ESCREVER / JOÃO SCORTECCI

O poeta e tradutor francês Boileau (Nicolas Boileau-Despréaux, 1636 – 1711), autor da obra “Discurso sobre a sátira” (1666), em que zomba do clero e da aristocracia, pinta quadros divertidos e parodia escritores, é considerado um polemista – aquele que trava polêmicas – e um teórico da literatura francesa. Escrevia, principalmente, para a aristocracia, dentro da tradição de Aristóteles e Horácio. Em 1674, publicou “A arte poética” (“L’Art poétique”), poema didático de 1.100 alexandrinos clássicos, dividido em quatro canções – obra que influenciou toda uma geração de escritores. Em 1677, foi nomeado, juntamente do poeta dramaturgo e matemático Racine (Jean Baptiste Racine, 1639 – 1699), historiógrafo do rei Luís XIV, e, em 1684, entrou para a Academia Francesa. Em 1687, publicou “Reflexões sobre Longino”, popularmente conhecido como “São Longuinho”, santo da Igreja Católica. Boileau foi venerado como grande poeta e inspirador de Racine e de Molière (Jean-Baptiste Poquelin, 1622 – 1673), ator e dramaturgo francês, considerado um dos mestres da comédia satírica. Boileau, nos versos iniciais do Canto I de “A arte poética”, afirma a necessidade de um talento inato, sem o qual a escrita poética lhe parece impossível. No entanto, ele sustenta a partir daí que esse talento natural não pode ser suficiente por si só, que ele deve se submeter às regras da poesia e, portanto, ao rigoroso aprendizado dessa arte. A perfeição só pode ser alcançada quando o gênio e o respeito pelas regras são combinados. Escreveu: “Há certos espíritos cujos sombrios pensamentos, são como nuvem espessa; sempre emaranhados. O dia da razão não saberia atravessá-la. Antes, pois, de escrever, aprendam a pensar (...) E sem perder coragem, vinte vezes empreendam a vossa obra: limpem-na sem cessar e tornem a limpá-la, acrescentem algumas vezes, mas outras eliminem.” Em dois dos versos mais famosos de “A arte poética", afirma: “O que concebemos bem é declarado claramente/E as palavras para dizê-lo chegam facilmente.”

João Scortecci


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NOS BRAÇOS DE DRUMMOND, EM ESTADO DE POESIA / MARIA MORTATTI

Dizem que a poesia salva e a memória falha. Mas há dias em que a poesia – insensível – me falha e o que me salva é a memória da poesia que me salvou naqueles dias e deles ficou como única prova – tangível – de sua existência. E há outros – tão sentimentais – em que até as escamas da sopa esfriando no prato são encobertas pelo cartaz amarelo na consciência: “neste país é proibido sonhar”. Assim aprendi com Carlos Drummond de Andrade (31.10.1902 – 17.08.1987), quando o vi pela primeira vez e nele toquei na estante da Biblioteca Pública Municipal "Mário de Andrade" de Araraquara. Desde então, quando, enclausurada nos sombrios enigmas da quadrilha, procuro a palavra que falta num verso que inunda minha vida inteira, mas a pena não quer escrever, lembro-me de nossos primeiros encontros delicadamente registrados no caderninho – secreto – da menina de 17 anos. Foi assim que, tempos atrás, por alguma magia na noite cega – consegui penetrar surdamente por uma fresta no reino das palavras. Lá reencontrei em estado de dicionário cada letra da palavra que nomeia a falta e a esperança, perdi-me entre os infinitos poemas que estão por ser escritos, até que, vencida pela fadiga das retinas, repousei a cabeça sobre a pedra e adormeci no caminho. Outubro chegava ao fim, quando me despertou um anjo torto com outro cartaz amarelo: neste país não é proibido sonhar. Levantei-me apressada. Era aniversário do poeta: 121 anos! Quase tropecei nas palavras, ainda impregnadas de sono. De mãos dadas, seguimos o dia. Sobre o tapete ou duro piso, compusemos com urgência a úmida trama. Um caso pluvioso! Para repousar, fomos à cama. Onde cabe todo o sentimento do mundo e o amor – ah, o amor! –, esse privilégio dos maduros, que começa tarde e se aprende depois de arquivar toda a ciência. A lua e o conhaque nos botaram comovidos como o diabo. Aconchegada em seus braços, em puro estado de poesia, sonhei que cantávamos o medo, respirando papel na noite do quarto. Acordei sozinha no escuro. Por que me abandonaste? E agora, José? Sem rima, a solução: chegara o tempo em que a vida é uma ordem. É preciso terminar o texto. Mesmo sabendo que tenho apenas duas mãos e meus ombros mal conseguem suportar o mundo, ainda que mal me exprima. Se procurar bem, acabo encontrando, não a explicação (duvidosa) da partida inesperada – Por quê? Por quê? Por quê? –, mas a poesia (inexplicável) dos tempos felizes. Mesmo sabendo que amar um passarinho é coisa louca e o canto é sua essência, se não há falta na ausência, se de tudo fica um pouco, por que não ficaria muito de nós em nós? Se amar se aprende amando e, tal uma lâmina, atravessamo-nos, fecundamo-nos e renascemos em cada novo cio, compondo em sete mil cantos as sete mil faces do amor, depois que as coisas tangíveis se tornaram insensíveis à palma da mão, ficamos nós em nós. Em estado de poesia nos habitamos: “Além do amor, não há nada,/amar é o sumo da vida.//São mitos do calendário/tanto o ontem como o agora/e o teu aniversário/é um nascer toda hora.//E nosso amor, que brotou/ do tempo, não tem idade/ pois só quem ama escutou/o apelo da eternidade.”

Maria Mortatti – 31.10.2023 (Dia de Drummond - Dia Nacional da Poesia)

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Obs.: Cito, sem aspas e com licença poética, versos de vários poemas de Drummond.


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CLICHÊS OU A INACABÁVEL ENCICLOPÉDIA DA ESTUPIDEZ HUMANA / MARIA MORTATTI

Do clichê tipográfico – palavra de origem francesa designando chapa matriz de impressão tipográfica que pode ser reproduzida indefinidamente – decorre a acepção de clichê, na linguagem oral e escrita, como chavão, lugar comum, frases ou ideias não originais, que se trivializam pela repetição de forma automática e abusiva. Podem se tornar eficientes para a comunicação em alguns contextos, como na publicidade, em máximas e provérbios, ou vazias de sentido, como na linguagem literária, quando, ressalvando-se o uso em paródias ou pastiches, soluções estilísticas originais de um grande escritor são repetidas por seus epígonos, também de forma automática e abusiva, por modismo ou admiração, muitas vezes sem saberem de sua origem e contexto. Nestes tempos de robôs treinados para copiar/plagiar textos disponíveis on-line, os clichês literários, além de abundantes, vêm se tornando cada vez mais naturalizados.

Reflexões sobre o assunto não são novas e nem sempre tiveram sentido pejorativo. Desde a Antiguidade clássica – quando os “topoi” (tópicos) eram a matéria dos argumentos e os lugares-comuns dos oradores em seus discursos – até o século XVIII, fórmulas estereotipadas de pensar e de dizer, imitando os clássicos – que deviam ser repetidas, inclusive constando de manuais escolares de composição – passaram depois a ser consideradas clichês. O jornalista e filólogo brasileiro João Ribeiro (1860 – 1934) publicou em 1908 seu estudo Frases feitas – Estudo conjetural de locuções, ditados e provérbios. O escritor francês Gustave Flaubert (1821 – 1880) dedicou muitos anos de sua vida a combater seu grande inimigo, a estupidez humana. Coletou clichês da sociedade francesa de sua época e os reuniu no inacabado Le dictionnaire des idées reçues ou Catalogue des opinions chic (Dicionário de ideias feitas ou Catálogo de ideias chiques) – que teria como título ou subtítulo “Enciclopédia da estupidez humana” – , publicado postumamente em 1911, como apêndice a outra obra inacabada, Bouvard et Pécuchet (1881) – e, em 1913, por Louis Conard, Libraire-Éditeur. A edição corrigida e ampliada do dicionário, com novos verbetes descobertos entre as anotações de Flaubert, foi lançada na França em 1950. No Brasil, foi traduzido pelo escritor, jornalista e editor Fernando Sabino (1923 – 2004) no livro Lugares-comuns, de 1952, dedicado ao escritor Hélio Pellegrino (1924 – 1988) e publicado na coleção Os Cadernos de Cultura, do Ministério da Educação e Saúde, editado pelo Departamento de Imprensa Nacional. Posteriormente, passou a ser editado pela Record, com acréscimo de um subtítulo irreverente: "As bobagens que a gente diz: eu, você e Flaubert". A tradução é precedida por um ensaio e informações sobre o dicionário. No ensaio, Sabino problematiza conceitos e funções históricas do lugar comum, concluindo: “Escrever bem não é repetir o que já foi bem escrito: é revalorizar os meios de expressão, juntar ou separar palavras para fazê-las reagir, servir-se do que já foi dito para dizer pela primeira vez. É preciso reabilitar as ideias cuja expressão a frase feita consumiu. Ter a coragem de surpreender como a um inimigo o lugar-comum e violentá-lo, libertando a verdade que possa encerrar. Usar esta verdade na descoberta de outras que um dia venham a ser lugar-comum.”

Sem dúvida, esses conselhos – que nada têm de "bobagens" – são realizados na obra de Sabino e de tantos grandes escritores que conseguem surpreender o lugar comum, violentá-lo e libertar suas verdades, dizendo-as pela primeira vez. Essa é também uma diuturna luta minha – possivelmente nem sempre bem-sucedida – e deveria ser a luta de todo escritor. Quantos epígonos, porém – especialmente nestes tempos de tanto conteúdo acessível on-line –, reproduzem enésimas vezes em suas chiclerias tantos lugares comuns, como “verdades acacianas”, mesmo que não tenham lido O primo Basílio, de Eça de Queirós”, nem tomado conhecimento do caricato Conselheiro Acácio, personagem metido a intelectual que agradava a todos com suas frases e citações proferidas em tom grave, sentencioso, pomposo, solene, mas vazias de sentido e repetidas indefinidamente, como amontoado de obviedades e chavões – à semelhança de chaves mestras usadas para abrir todo tipo de fechaduras e que também possibilitam furtos. Assim os clichês, como chiclé mascado – em anagrama mal disfarçado de chique –, vão grudando na língua de escritores desavisados e mal informados, que, acreditando serem os primeiros a dizer, violentam os ouvidos de leitores, contribuindo, muitas vezes de modo involuntário, para uma inacabável enciclopédia da estupidez... ou da ingenuidade humana, hoje ampliadas pelas artimanhas de robôs treinados para reproduzi-las indefinidamente.

Maria Mortatti – 30.10.2023


 

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JOSÉ OLYMPIO, CASA GARRAUX E A SEMANA DE ARTE MODESTA EM BATATAIS/SP NO ANO DE 1987 / JOÃO SCORTECCI

A José Olympio Editora foi fundada em 1931 pelo editor e livreiro batataense José Olympio (José Olympio Pereira Filho, 1902 – 1990), na cidade de São Paulo. Em 1918, com 16 anos de idade, José Olympio deixou Batatais – região metropolitana de Ribeirão Preto – e se mudou para a capital paulista, com o objetivo de estudar Direito. Conseguiu um emprego na Papelaria, Livraria e Typographia Casa Garraux (A. L. Garraux & C.), então de propriedade de Charles Hildebrand. Trabalhou na seção de livros, e o serviço consistia em abrir caixas de livros e limpar a poeira das estantes. Depois passou a ajudante de balconista, época em que tomou gosto pelos livros. A Casa Garraux era frequentada por políticos e escritores, como Menotti Del Picchia, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Plínio Salgado e Cassiano Ricardo. Em 1926, com a morte de Charles Hildebrand, José Olympio assumiu o cargo de gerente da seção de livros. No final da década de 1920, José Olympio começou a se interessar por livros raros e se tornou um respeitado entendido no assunto. Com a morte do advogado e jornalista, Alfredo Pujol (Alfredo Gustavo Pujol, 1865 – 1930), colecionador de livros raros, Olympio fez uma oferta para a família e comprou todo o acervo desse colecionador. Foi o início do seu legado. Adquiriu – depois – vários outros acervos, para, em 1931, aos 28 anos de idade, fundar a Casa José Olympio Livraria e Editora, na Rua da Quitanda, 19 A, na capital paulista. Em 1934, a livraria se mudou para a cidade do Rio de Janeiro, então centro intelectual do Brasil. Em 1935, Olympio se casou com a professora e escritora Vera Pacheco Jordão, com quem teve dois filhos, Vera Maria Teixeira e Geraldo Jordão Pereira (1938 – 2008), fundador da editora Sextante (1998), junto de seus filhos Marcos da Veiga Pereira e Tomás da Veiga Pereira. Nas décadas de 1940 e 1950, a José Olympio se tornou a maior editora brasileira. Publicou perto de 2 mil títulos, com 5 mil edições, sendo 900 autores nacionais e aproximadamente 500 autores estrangeiros. Em 1987, visitei Batatais – cidade natal de José Olympio –, durante a Semana de Arte Modesta, encontro comemorativo dos 65 anos da Semana de Arte Moderna de 1922. O evento em Batatais foi “grandioso” e registrou a presença de centenas de escritores de todo os cantos do Brasil. Fomos e voltamos de ônibus alugado pela Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. Do meu lado – eu, na janela do ônibus, e ele, no corredor do meio –, o escritor e editor Pereira (Antonio Olavo Pereira, 1913 – 1993), irmão caçula de José Olympio. A viagem de 350 km, de São Paulo até Batatais, durou quase 6 horas. Dos atrasos e das demoras, uma única certeza: torcendo para não chegar nunca! Conhecê-lo foi um “presente dos deuses”. Na época, a Scortecci Editora tinha pouco mais de cinco anos de idade. Em 2001, a José Olympio Editora foi comprada pelo Grupo Editorial Record.

João Scortecci



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GRACILIANO RAMOS: ARTE É ISSO / MARIA MORTATTI

“Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne. Além disso não há nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos. (...) Arte é isso. (...) Revele-se toda.” Esse trecho se encontra na carta de Graciliano Ramos (27.10.1892 – 20.03. 1953) dirigida a sua irmã Marili, a propósito de um conto que ela escrevera. Li recentemente a carta, mas esses conselhos – que o escritor expõe e realiza, em sangue e carne, em sua obra – ecoam na memória de leitora e em meu ofício de escritora. Desde os primeiros que li nos anos 1970 – São BernardoAngústiaVidas secas – e os que se seguiram, como: A terra dos meninos pelados, Histórias de AlexandreInfânciaMemórias do cárcereViventes das AlagoasAlexandre e outros heróis, admirei o estilo conciso, direto e encantatório de Graciliano. E cada vez que me ponho a escrever, sinto-me um pouco como “o menino mais velho”, personagem de Vidas Secas, que “nunca tinha ouvido falar em inferno”. Perguntou à mãe, Sinhá Vitória, ao pai, Fabiano, e à cachorra Baleia. O pai não deu atenção, a mãe lhe disse que era um lugar ruim e, quando quis saber se ela tinha visto, Sinhá Vitória “zangou-se e aplicou um cocorote”. Consolou-se com Baleia, contando-lhe histórias com seu vocabulário minguado, valendo-se de exclamações e gestos, e a cachorra respondendo com o rabo e a língua. Quando me pus a escrever este texto, esse episódio voltou à memória, simbolizando a obcecada busca de Graciliano pela palavra essencial, outro e complementar conselho seu em carta a tradutores argentinos: “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer”. Provavelmente não consegui encontrar palavras essenciais para dizer minha admiração por sua obra, mas ao menos busquei a concisão e não desomenageei o escritor, com enfeites e ouros falsos. Seus conselhos continuam vivos como aprendizado sobre o inferno que é o ofício de escritora na busca obsessiva para me revelar em sangue e carne. Arte é isso?

Maria Mortatti – 27.10.2023  


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PALMEIRA DOS INDÍOS E A CADELA BALEIA / JOÃO SCORTECCI

O ator Jofre Soares (José Jofre Soares, 1918 – 1996) nasceu em Palmeira dos Índios, agreste alagoano, distante 136 km da capital, Maceió. Terra do “Homem da Capa Preta” (Tenório Cavalcante, 1906 – 1987) e também do escritor Graciliano Ramos (1892 – 1953), autor de Vidas secas e Memórias do cárcere. O ator Jofre Soares começou sua carreira em 1961, aos 43 anos de idade. Atuou em mais de 100 filmes, entre eles: O bom burguês (1979), O grande mentecapto (1989), Terra em transe (1967), Memórias do cárcere (1984) e Bye bye Brasil (1979). Antes disso, foi oficial da Marinha por 25 anos. Já tinha se aposentado como marinheiro e se dedicava ao teatro amador e ao circo da cidade, no qual era um palhaço, quando o cineasta Nelson Pereira dos Santos (1928 – 2018) o conheceu e o convidou para fazer o filme Vidas secas, baseado na obra de Graciliano Ramos. A cadela vira-lata, que interpreta Baleia, foi encontrada pelo cineasta embaixo de uma barraca de frutas, numa feira de Palmeira dos Índios. Uma das cenas mais famosas do filme Vidas secas é o abatimento da cadela Baleia, em que é mostrado o animal sendo atingido por um tiro de espingarda, dado por seu dono, Fabiano. Quando o filme foi exibido no Festival de Cannes, na França, em 1964, o público e a crítica francesa ficaram impressionados com o realismo da cena e acreditaram que a cadela tivesse sido de fato sacrificada de verdade durante as filmagens, o que não foi verdade. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo no ano de 2018, o diretor de fotografia do filme Luiz Carlos Barreto (1928 –    ), explicou como a cena da morte de Baleia foi realizada: “Pegamos uma linha branca de costura, amarramos a perna no rabo para ela fingir que tinha levado o tiro. Tinha a maquiagem, água de chocolate, não sei o quê. Ela tinha de fechar os olhos. Nós escolhemos uma locação, um carro de boi e o sol nascendo para ela olhar para o sol. O sol batia, e ela foi fechando os olhos por causa da luminosidade. O Nelson botou toda a equipe para fora, e só ficou eu, ele e o José Rosa – e a câmera. Ninguém falava nada. Na hora que ela começasse a fechar os olhos, o Nelson catucava o Zé Rosa e ele ligava a câmara. Foi o combinado. O sol nasceu, ela fechou os olhos e deu a sensação nítida de morte.” A cadela Baleia também é imortal. Vez por outra a vejo correndo no agreste, livre e solta, na imensidão da memória da vida. 

João Scortecci

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A “RODA DE LIVROS” DO CAPITÃO RAMELLI / JOÃO SCORTECCI

O engenheiro e capitão italiano Agostino Ramelli (1531 – 1610), nasceu na comuna de Ponte Tresa, hoje Suíça. Foi o inventor da “Roda de livros”, uma estante rotativa que possibilita ler, consultar e pesquisar vários livros num mesmo local. Foi inventada numa época em que livros grandes apresentavam problemas práticos para os leitores. Girava como se fossem movimentos de um moinho movido a água. Para garantir que os livros permanecessem em um ângulo consistente, Ramelli incorporou ao projeto engrenagens epicíclicas. À medida que a roda gira, cada prateleira gira na mesma proporção, permanecendo nivelada. Ramelli ficou conhecido por escrever e ilustrar o livro de projetos de engenharia As várias e engenhosas máquinas do Capitão Agostino Ramelli (Le diverse et artificiose machine del Capitano Agostino Ramelli), que, além de seu projeto da “Roda de livros”, contém 195 designs, mais de 100 dos quais são máquinas de levantamento de água, como bombas d'água, pontes, moinhos e um possível precursor do motor Wankel – motor rotativo de combustão interna, inventado pelo engenheiro alemão Felix Wankel (1902 – 1988), que utiliza rotores com formato semelhante ao de um triângulo, em vez dos pistões dos motores alternativos convencionais. Durante o Cerco de La Rochelle, ordenado por Luís XIII, rei da França, e comandado pelo Cardeal de Richelieu (Armand Jean du Plessis, 1585 – 1642), que acabou com a capitulação da cidade, em 28 de outubro de 1628, Ramelli construiu com sucesso uma mina sob um bastião – posto avançado para a defesa de um território – e conseguiu violar a fortificação, até então inviolável. Ramelli morreu em Paris, aos 79 anos de idade. Ficou na história do conhecimento como o mais criativo inventor de “engenhocas” movidas pelas forças da água e da natureza de Deus.

João Scortecci

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CAMILO CASTELO BRANCO E O AMOR: PERDIÇÃO E SALVAÇÃO / MARIA MORTATTI

Certos livros têm um misterioso poder de atração, antes, durante e depois da leitura. Há os inteiramente sedutores, que convidam à releitura. Há os que basta ler uma vez, pois cumpriram sua missão, deixando um ou outro aspecto gravado nas estantes da memória: o momento da leitura, uma frase, um verso, um enredo, um episódio, um protagonista, a capa, o título. 

De duas novelas do escritor português Camilo Castelo Branco (16.03.1825 – 1º.06.1890), ficaram-me principalmente os títulos: Amor de perdição e Amor de salvação. Gostei de lê-las durante o curso de Letras e, nos anos 1980, com meus alunos do ensino médio – na edição pela Série Bom Livro, da Ática. O foco eram, então, as caraterísticas do Ultrarromantismo português – amores idealizados e arrebatadores, sofrimento e melancolia – presentes nessas e na extensa obra desse prolífico e popular escritor, de estilo por vezes também satírico e bem-humorado – , talvez o primeiro a viver dos rendimentos de suas publicações – mais de duas centenas, alguns sob pseudônimo, entre romances, novelas, crônicas, poemas, comédias, ensaios, traduções, além dos inéditos que deixou; e aspectos de sua turbulenta vida: filho bastardo, órfão desde criança, leitor de clássicos portugueses e latinos, com personalidade irrequieta e apaixonada, marcada por amores tumultuados e proibidos, por prisão por adultério, por dificuldades financeiras e pela sífilis, causa da cegueira que, impedindo-o de ler e escrever e depois de esgotadas todas as tentativas de cura, levou-o a cometer suicídio, aos 65 anos de idade, com um tiro de revólver na têmpora direita, sentado em sua cadeira de balanço onde agonizou por algumas horas, assistido por Ana Plácido, sua antiga paixão e com quem finalmente se casara em 1885, ano em que também recebeu o título de 1º. Visconde de Correia Botelho.

Amor de perdição – Memórias de uma família, de 1862, é sua novela mais famosa e mais passionalmente romântica e inspirada em fatos de sua vida. Foi escrita em 15 dias, durante o período em que o autor esteve preso na Cadeia da Relação, na cidade do Porto, por crime de adultério com Ana Plácido, então casada e também presa pelo crime. Evocando Romeu e Julieta, de William Shakespeare, na novela de Camilo Castelo Branco, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, dois jovens de famílias rivais, são impedidos de se casarem. Simão mata Baltazar, o pretendente destinado a Teresa, que é enclausurada em um convento. Enquanto espera a decisão sobre sua pena, Simão é preso e conta com apenas com a fiel companhia de Mariana, que se apaixona platonicamente por ele. Ao final, Simão e Teresa, após enfrentarem obstáculos e sofrimentos, morrem por e de amor. Em Amor de salvação, de 1864, é narrada a história de Afonso de Teive e Teodora Palmira, prometidos um ao outro por suas mães. Com a morte da mãe de Teodora, ela é enviada para um convento e, apesar da promessa dos jovens de se casarem assim que possível, não se conforma com regras para as mulheres da época e se casa com o primo Eleutério. Afonso sofre, dividido entre o amor da prima Mafalda, rica e bondosa, que por ele se apaixona, e o de Teodora, que vivendo de “alma livre”, decide deixar o marido e ficar com Afonso. No final, porém, ao “amor de perdição” do desesperado Afonso por Teodora, tem-se o “amor de salvação” (financeira, sobretudo): ele se casa com Mafalda, e têm oito filhos. Nas palavras do autor: “Para o amor maldito, duzentas páginas; para o amor de salvação, as poucas restantes do livro. Volume que descrevesse um amor de bem-aventuranças terrenas seria uma fábula.”

Dos enredos que resumi, lembrava-me pouco. Tive de retomar e folhear os livros. E confesso que não me causaram impacto maior do que recordações de leituras distantes de clássicos de um grande escritor que fazem parte de minha formação literária e intelectual. O que ficou, de fato, foram os títulos, com sentidos que se renovam nas milhares de  páginas – mais de perdição que salvação – da história nada fabulosa minha vida, ora escondidos, ora escancarados, nos contraditórios e insondáveis mistérios das faces do amor, esse sentimento de que – como da morte – ninguém escapa.

Maria Mortatti – 22.10.2023

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A SÉRIE VAGA-LUME, A LITERATURA "PARADIDÁTICA" E A FORMAÇÃO DE LEITORES NO BRASIL / MARIA MORTATTI

Lançada em 1973, sob a direção do editor e professor Jiro Takahashi (22.11.1947 –  ), que se tornou uma “lenda” no mercado editorial brasileiro, a Série Vaga-Lume da editora Ática deu início à publicação de livros de literatura para público jovem que se tornaram clássicos. E também consolidou o termo “paradidático” para designar esse produto editorial e o correspondente modo e espaço escolar de circulação de textos literários. Embora livros desse tipo fossem utilizados esparsamente nas escolas brasileiras desde o início do século XX – com destaque para Através do Brasil (1910), de Olavo Bilac e Manoel Bonfim –, a criação do termo “paradidático” é atribuída ao professor Anderson Fernandes Dias, diretor-presidente da Editora Ática, e ao editor e professor Jiro Takahashi, tendo se estendido a material de apoio de várias matérias do currículo escolar, além de Língua Portuguesa. Com reformulações no projeto original e desdobramentos na Série Vaga-Lume Júnior, desde os anos 1970 mais de 150 títulos foram lançados ou relançados, superando, segundo a editora, oito milhões de exemplares vendidos até 2021. 

Originada da impressão em mimeógrafo de apostilas didáticas para o Curso de Madureza Santa Inês, da cidade de São Paulo, a Ática iniciou, em 1970, a publicação de paradidáticos na área de língua portuguesa e literatura com a Série Bom Livro de clássicos de literatura brasileira e portuguesa. Com a democratização do ensino público decorrente das mudanças estabelecidas pela Lei n. 5.692, de 1971 – que, entre outras medidas, tornou obrigatório o ensino de oito anos – e com novos programas de incentivo à leitura e à formação de leitores, a Vaga-Lume foi destinada, como leitura extraclasse, para um público específico: estudantes de 5ª a 8ª. série do então 1º. grau, com idades entre 10 e 14 anos, pouco habituados à leitura de clássicos. Na contracapa dos livros, constavam seus objetivos de adequação aos interesses e gostos de estudantes dessa faixa etária: “Para despertar e criar o gosto pela leitura. Histórias emocionantes, cheias de ação, uma linguagem simples e direta. Todos os títulos com um Suplemento de Trabalho especial”. E com capas inovadoras para a época. Como conta Takahashi em entrevistas, os livros eram selecionados entre os que chegavam à editora e os indicados por professores, além de a editora convidar autores para escrever especialmente para a Série. Eram também “testados” por estudantes que davam sugestões sobre temas e distribuídos gratuitamente aos professores. Além das inovações, o baixo custo dos livros foi outro fator de sucesso da Série.

Os primeiros lançamentos da Vaga-Lume foram títulos de autores contemporâneos já publicados e consagrados em décadas anteriores, alguns agraciados com prêmios e indicações nacionais e internacionais. Entre esses, constam: dois de Maria José Dupré republicados em 1973 – A ilha perdida, de 1944, que inaugurou a Vaga-Lume, com mais de 5 milhões de exemplares vendidos até os dias atuais, e Éramos Seis, de 1943; seis títulos de Lúcia Machado de Almeida – O caso da borboleta Atíria, de 1951, republicado na Série em 1976, O escaravelho do diabo, publicado originalmente na revista O Cruzeiro e republicado em 1974, e As aventuras de Xisto, de 1957, republicado em 1973; dois títulos de Homero Homem – Cabra das Rocas, de 1960, republicado em 1973, com meio milhão de exemplares vendidos, e Menino de asas, de 1969, republicado em 1978, com mais de um milhão de exemplares vendidos até 1988 e que constou da lista de honra do Prêmio Hans Christian Andersen, em 1979; três títulos de Ofélia e Narbal Fontes – Cem noites tapuias, republicado em 1976, ano em que foi premiado com o Jabuti – CBL, O gigante de botas, de 1940, republicado em 1974, Coração de onça, de 1942, republicado em 1977. A partir dos anos 1980, autores brasileiros foram convidados a escrever especialmente para a Vaga-Lume. O primeiro e o “rei da Série” foi Marcos Rey, pseudônimo de Edmundo Donato, que já era consagrado como autor de obras para adultos, roteirista e tradutor. Estreou na literatura para jovens com a publicação na Vaga-Lume, em 1981, de O mistério do cinco estrelas, que, até fevereiro de 1995, vendeu quase um milhão de exemplares, seguido de 14 títulos seus publicados quase anualmente, entre os quais, O rapto do garoto de ouro, de 1982, Um cadáver ouve rádio, de 1983, Sozinha no mundo, de 1984, e Gincana da morte, de 1997, o último que publicou na Vaga-Lume. Também se destacou, entre outros, o escritor mineiro Luiz Puntel, com sete livros na Série, o primeiro deles Deus me livre!, de 1984.

Os livros da Vaga-Lume fizeram sucesso também entre meus alunos da educação básica nos anos 1980. Analisei três deles – A ilha perdidaAventuras de Xisto e O mistério do cinco estrelas – em minha dissertação de mestrado em educação, na Universidade Estadual de Campinas, orientanda por Joaquim Brasil Fontes Junior e publicada no livro Leitura, literatura e escola (Martins Fontes, 1989). Na enquete que realizei em 1984, com professores e alunos de escolas públicas da região de Campinas/SP, os preferidos eram também os best-sellers da Vaga-Lume. Contando com autores e títulos consagrados antes ou com sua participação na Série, com textos narrativos ficcionais adequados aos interesses e gostos dos jovens, com modo de circulação no espaço escolar, mas como leitura extraclasse, e com baixo custo, esses “paradidáticos” de literatura brasileira – como os de outras duas séries da editora: Bom Livro e Para Gostar de Ler – ampliaram o sentido do termo e desse tipo de produto editorial, tendo se tornado clássicos – os títulos e a Série – e um marco importante na história da literatura para jovens no Brasil e que, há 50 anos, vêm contribuindo para a formação de várias gerações de leitores.

Maria Mortatti – 21.10.2023

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RILKE E O JOVEM POETA KAPPUS / JOÃO SCORTECCI

Dez cartas – idas e vindas – e nenhuma poesia! O poeta checo Rilke (Rainer Maria Rilke, 1875 – 1926), em carta enviada ao jovem jornalista e cadete austríaco Franz Xaver Kappus (1883 – 1966), que ambicionava ser um poeta: “Ninguém de fora pode julgar se um autor deve continuar ou desistir de escrever: cada artista precisa avaliar, solitariamente, suas motivações e então descobrir se a arte é para ele tão importante quanto respirar. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se entende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever?” Na biografia de Kappus encontrei romances, roteiros e nenhuma poesia. Teria desistido? Viver Rilke e nunca ter “cometido” um poema? Impossível. Pergunta: O que teria acontecido com a décima primeira carta? Existiu de fato? De duas, uma: escrita e nunca enviada – ou nunca respondida? Ficou o mistério. Encontrei na Carta n. 7 um soneto de Rilke dedicado ao jovem Kappus: “Treme sem queixa por meu coração,/sem suspiro, uma dor muito sombria./ Só dos sonhos a nívea floração/é a festa de algum mais tranquilo dia.//Tanta vez a grande interrogação/se me depara! Encolho-me, e com fria/ timidez passo, como passaria/por bravo mar, sem aproximação.//Desce, então, sobre mim, turva amargura/como esses céus cinzentos de verão/onde uma estrela às vezes estremece.//Tateantes, minhas mãos vão à procura/do amor, buscam palavras da oração/que meu lábio deseja e não conhece” Busco, desde então, encontrar – mesmo que perdido, que seja – um poema do jovem Franz, que confesse a si mesmo: “morreria, se lhe fosse vedado escrever?”. Cadê você, Rilke? Não o tenho visto na estante de livros. Deve ter sido “surrupiado” ou ido embora, simplesmente. Quando? Não sei. Relendo a primeira carta, de 17 de fevereiro de 1903, algo nas entrelinhas, ainda por dizer: “Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes.” Outro dia, um poeta – iniciante, talvez – enviou-me pelo WhatsApp um pedido cruel: “João, lê meu livro e depois me diga, com sinceridade, o que você achou.” Cadê você, poeta Rilke? Ajude-me! A palavra “sinceridade” no âmago do verso alheio incomoda-me, sempre. O que devo, então, dizer-lhe? Que o seu poema é belíssimo, intenso e feroz? Tudo verdade! Cinquenta anos de poesia e eu não fui capaz de escrever algo igual. Escrevi-lhe, então, mensagem de resposta: “Cada poeta precisa avaliar, solitariamente, suas motivações e então descobrir se a arte é para ele tão importante quanto respirar. Não desista!” Fui covarde. Quase morri de inveja. Tudo culpa de Rilke e do furo da rosa! O belo não é senão o início do terrível, algo assim. 

João Scortecci


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MASSAO ONO, PEDRO MORAES, MARIA VIANNA, CUNHA BUENO E VINICIUS DE MORAES: POSTO QUE É CHAMA! / JOÃO SCORTECCI

Quando da morte do poeta, diplomata e compositor Vinicius de Moraes (Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes, 1913 – 1980), em 9 de julho, uma quarta-feira, o editor e artista gráfico Massao Ohno (1936 – 2010), ligou-me e deu – de sola – a triste notícia: “Scortecci, o Vinicius morreu!”. “Não sabia”, respondi, surpreso. Massao Ono, aceleradíssimo, metralhou: “Falei agora com o Pedro, filho do Vinicius. Sabe, né? Ele autorizou usarmos aquela foto do pai de perfil, num cartaz! Sabe qual é, né?” “Não”, respondi. “Vinicius de perfil, sem a garrafa e o copo de uísque, claro!”, justificou. E continuou falando, sem parar: “Faço a arte final, “fulano de tal” cuida dos fotolitos e você imprime os cartazes. Combinado?” Topei. Massao Ohno, pilhado, continuou: “Estão organizando uma missa, algo assim, na igreja da Consolação, aqui em São Paulo, no sábado, dia 12, em sua homenagem. A ideia é distribuir o cartaz na cerimônia. Temos 3 dias!” Terminamos a conversa, com a promessa de nos falarmos novamente, no final do dia. Liguei, então, para a atriz e poeta cearense Maria Vianna, atriz em filmes como “Menino da porteira”, “A pequena órfã” e autora da Scortecci, com o livro de poemas “Vertical dos Descaminhos”. Contei-lhe o plano. Maria Vianna, prontamente, ligou para o Deputado Cunha Bueno, também autor da Scortecci e, na época, Secretário de Cultura do Estado de São Paulo. O pedido foi curto e irrecusável: “Secretário, precisamos imprimir 500 cartazes, formato meia folha, papel couchê, para um evento em homenagem ao Vinicius! Feito?” Na hora, Cunha Bueno autorizou a impressão. No dia da homenagem, na Igreja da Consolação, sábado, dia 12 de julho, às 11 horas da manhã, os cartazes foram distribuídos, gratuitamente. Surpresa foi encontrá-los – também  –  à venda, na entrada da igreja da Consolação. Até hoje não sei quem ganhou dinheiro, por fora. Na época, investigamos a bandidagem, sem sucesso. Culparam alguém da gráfica, algo assim. O cartaz e as provas, hoje, fazem parte do memorial da Scortecci. Na belíssima foto original tirada pelo fotógrafo Pedro de Moraes (1942 – 2022), filho de Vinicius, aparecem uma garrafa de uísque e um copo, além do perfil do poeta, eternizado por Massao Ohno, no cartaz. Vinicius: “Que não seja imortal, posto que é chama,/Mas que seja infinito enquanto dure.”

João Scortecci


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FALAR NA LÍNGUA DO SANTO E NA LÍNGUA DO “P” / JOÃO SCORTECCI

"Pajubá" é um dialeto ou criptoleto – linguagem de um grupo, usada para excluir ou confundir pessoas de fora do grupo – da linguagem popular, constituído da inserção em língua portuguesa de palavras e expressões provenientes de línguas africanas ocidentais, como nagô e iorubá. O pajubá (ou bajubá) é muito usado pelo chamado “povo do santo”, praticantes de religiões afro-brasileiras, como o candomblé. No Brasil, a partir de 1968, durante o período da ditadura militar, foi usado como código entre homossexuais, travestis e, posteriormente, adotado pela comunidade LGBT e simpatizantes. A palavra “pajubá” tem o significado de fofoca, novidade e notícia. Entre as palavras populares nesse criptoleto, estão: “mona” – gay efeminado; “gongar” – ato de zombar de alguém ou de alguma coisa; e “babado” – novidade. O “pajubá” reúne também características linguísticas próprias, como o vocabulário, o movimento performático do corpo, a tonalidade das palavras e o contexto cultural. Ganhou seu primeiro documento oficial em 1995, com a publicação do dicionário Diálogo de bonecas, organizado por Jovana Baby – batizado Osias Cardoso –, presidente da extinta Astral – Associação de Travestis e Liberados. Quando criança – isso nos anos 1960 – aprendi a cifra da “Língua do P”, que consiste em introduzir a consoante “P” antes de cada sílaba da palavra. Exemplo: “João gosta de comer feijão e farinha”, ficaria assim: “PEJoPEão PEgosPEta PEde PEcoPEmer PEfeiPEjão PEe PEfaPEriPEnha”. No dicionário Diálogo de bonecas até arrisquei um poema à la Drummond: “Ocó de equê, que amava Mona de equê, que amava Ocó, que amava Aracá, que não amava ocani.” Que desastre! 

João Scortecci

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POR QUE LER ITALO CALVINO? / MARIA MORTATTI

Para responder – de modo mais coerente – à pergunta-título deste texto, bastaria talvez apresentar cada um das centenas de trabalhos – romances, contos, ensaios, entrevistas, relatos de viagem, cartas, traduções, letras de canções, entre outros – que compõem a obra do escritor cubano-italiano Italo Calvino (15.10.1923 – 19.09.1985), considerando sua famosa afirmação sobre a irrelevância da biografia do autor, em carta de 1964, para Germana Pescio Bottino: “eu sou daqueles que creem, com Croce, que, de um autor, só as obras contam (quando contam, naturalmente). Por isso, dados biográficos não os dou – ou dou-os falsos – pelo menos, procuro sempre alterá-los de umas vezes para outras. Pergunte-me, porém, o que quer saber e dir-lho-ei. Mas nunca direi a verdade, disso pode estar segura." Ou, com certo atrevimento, poderia comentar cada um de seus romances – lançados pela Editora Einaudi, de que ele foi colaborador –, desde o primeiro, O caminho dos ninhos de aranha (1947), e ressaltando os mais conhecidos no Brasil – O visconde partido ao meio (1952), O barão nas árvores (1957), O cavaleiro inexistente (1959), As cidades invisíveis (1972), Se um viajante numa noite de inverno (1979), Palomar (1983), até os lançamentos de traduções brasileiras mais recentes. E neles destacaria as propriedades literárias – “Leveza”, “Rapidez”, “Exatidão”, “Visibilidade”, “Multiplicidade” e “Consistência” –, que Calvino apresenta em Seis propostas para o próximo milênio – lições americanas (1988, póstuma), reunião de palestras que iria proferir na Universidade de Harvard, mas faleceu em decorrência de derrame cerebral, antes de escrever a última – e de proferi-las. Ou, ainda, bastaria reproduzir aqui as 14 “propostas de definição” de clássico, apresentadas em seu livro Por que ler os clássicos, coletânea de ensaios, críticas, prefácios e resenhas “sobre ‘seus’ clássicos: os escritores, os poetas, os cientistas que mais contaram para ele em diversos períodos de sua vida”, como informa sua esposa, a tradutora argentina Esther Calvino (Chichita), em nota à edição italiana de 1991, publicada, portanto, após a morte do escritor, como ele mesmo desejava. 

Em todo caso, ainda ficaria uma pergunta: por que escrever sobre Italo Calvino, se eu e tantos outros já o fizemos, especialmente neste ano em que se comemora o centenário de seu nascimento? E se ele mesmo afirmou: “de um autor, só as obras contam”? Entre perguntas e respostas presunçosas ou tautológicas, o melhor a fazer nesse caso é dar a palavra a Calvino. Se clássicos são “aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ‘estou relendo...’”, "que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições de apreciá-los”, “que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual”; “um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”; “aqueles livros que chegam até nós trazendo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram”; “que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato, mais se revelam novos, inesperados, inéditos”, " 'seu' clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele”; e se “os clássicos servem para entender quem somos e aonde chegamos”, então, considerando toda sua obra, inclusive Por que ler os clássicos, Calvino é, naturalmente, um clássico.

Então, por que ler (e reler) Calvino neste milênio... e nos próximos? Se nenhum desses argumentos for suficiente, resta a justificativa mais simples e certeira de Calvino: “A única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos. E se alguém objetar que não vale a pena tanto esforço, citarei Cioran [...] ‘Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta. ‘Para que lhe servirá?’, perguntaram-lhe. ‘Para aprender esta ária antes de morrer.’" E por que, afinal, escrever sobre Calvino? Bem, essa resposta é até mais simples: escrever este texto me proporcionou momentos adoráveis de intimidade com o autor, relendo seus clássicos, que nunca terminam de me dizer aquilo que tinham para dizer, desde o primeiro que li, Se numa noite de inverno um viajante (Editora Vega; Lisboa, 198?), aceitando o convite para tomar a posição mais cômoda e participar, como protagonista, do jogo narrativo: “Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de todos os outros pensamentos. (...) Di-lo já aos outros: ‘Não quero ser incomodado (...) Estou a começar a ler o novo romance de Italo Calvino’”.

Maria Mortatti – 15.10.2023


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A POESIA ENCARNADA DE MARINA TSVETÁIEVA / MARIA MORTATTI

Há poetas que, como faíscas que se desprendem de uma alma em brasa, iluminam cantos silenciados, encarnando-se em nós na mistura gasosa e incandescente da língua de fogo da poesia viva. Assim me pus a refletir, quando mergulhei em (re)leituras de e sobre a poeta, escritora – de ensaios literários e biográficos, peças de teatro, cartas, diários – e tradutora Marina Tsvetáieva (Moscou, 26.09.1892 – Yelabuga, 31.08.1941), uma das mais influentes poetas russas do século XX. Essa mulher insubmissa, que viveu da poesia e para a poesia, escreveu – diariamente – para se manter viva, realizando a autoprofecia da jovem que, em 1913, “quando nem sabia que era poeta”, escreveu: “para meus versos chegará seu tempo”. Assim foi durante sua breve vida: durante a Rússia czarista, as turbulentas condições políticas e econômicas da União Soviética, as duras tragédias pessoais e os célebres amores de inspiração poética mútua, como Sophia Parnok, Anna Akhmatova, Ossip Mandelstam, Rainer Maria Rilke, Boris Pasternak e Arseny Tarkovski. Em sua obra poética, tematizou, entre outros, a vida, a natureza e a morte, com influência de canções folclóricas e mitologia clássica. É reconhecida pelo despojamento formal, rimas inesperadas, sintaxe fragmentária, uso do travessão – uma de suas principais marcas estilísticas –, sensibilidade aguçada e passional, lirismo efusivo, incandescente e intenso, quase sempre “possessa”, com “gravidade elegante e ponderada”, nas palavras da professora e crítica literária Aurora Bernardini. Quando admirava um poeta e escrevia sobre ele, personificava seu estilo, como nos poemas a Maiakóvski e a outros poetas que influenciaram sua obra. 

Era filha de Ivan Vladimirovich, professor da Universidade de Moscou, filólogo, colecionador e crítico de arte e fundador do Museu de Belas Artes, e de Maria Mein, alemã de nascimento e pianista talentosa, que morreu de tuberculose quando Tsvetáieva tinha 14 anos de idade. Aprendeu música aos quatro anos de idade, leitura e escrita, aos cinco anos, e, além de russo, aprendeu alemão e francês. Em 1910, com 18 anos de idade, publicou, com recursos próprios, o primeiro livro de poemas, Album da tarde – incluindo redações escolares –, elogiado por grandes escritores e pelo crítico Maximilian Voloshin, que se tornou seu amigo e mentor. Participou de círculos literários e publicou seu primeiro trabalho de crítica literária dedicado à obra do poeta Valeri Bryusov. Em 1912, casou-se com Sergei Efron, estudante de filosofia na Universidade de Moscou, tiveram a primeira filha, Ariadna, e a poeta lançou seu segundo livro Lanterna mágica. Em 1914, já tendo nascido Irina, a segunda filha do casal, durante a Guerra Civil russa Efron se alistou no contrarrevolucionário “exército branco”, com que a poeta também simpatizava e que ele, mais tarde, abandonou para servir à polícia secreta soviética. Embora escrevesse sempre, Tsvetáieva nada mais publicou até 1922. Nesse período, manteve relações amorosas com os poetas Ossip Mandesltam e Sofia Parnok e, devido à fome da população moscovita, viu-se obrigada a deixar suas filhas em um orfanato estatal, onde Irina morreu de desnutrição, em 1919. Para se unir ao marido que estava em Praga, concluindo estudos em filosofia, em 1922 Marina emigrou com a família, passando por Berlim, onde encontrou o poeta e romancista russo Boris Pasternak, que estava comprando o segundo livro dela, editado por uma editora moscovita sem que ela soubesse. Como relata Aurora Bernardini, o poeta russo foi conquistado pela “potência lírica da forma, uma forma vivida intimamente, que nada tinha de frágil, mas um vigor conciso e condensado.” Teve vontade de conhecê-la e escreveu uma carta entusiasmada, iniciando-se entre eles a correspondência que durou mais de uma década e foi marcada por momentos de paixão, ao ponto de, em 1926, Pasternak ter pensado em deixar a Rússia e se unir à poeta. A ele Tsvetáieva dedicou um ciclo de poemas, e se encontraram apenas uma vez, pouco antes de ela morrer. 

Em 1925, a poeta se estabeleceu em Paris, onde, durante 14 anos, vivendo na pobreza e isolada da comunidade russa de expatriados, dedicou-se à família, à poesia, ao trabalho literário, colaborando com revistas e jornal, manteve correspondência com Pasternak e com Rilke e dedicou poemas a Akhmatova. Em 1939, retornou com o filho Georgi para a Rússia, onde já estavam o marido, que foi executado em 1939, por ter se  contraposto a Stalin e defendido Lenin, e sua filha Ariadna, que foi enviada a um campo de trabalhos forçados, onde permaneceu até ser “reabilitada” em 1955. Por ser parente de “inimigos do povo", Tvestáieva não conseguia emprego nem moradia permanente, vivendo da ajuda de algumas mulheres, e se ocupava com traduções e o organização de coletânea de poemas. Quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial e se iniciou a invasão alemã na União Soviética, a poeta foi evacuada com o filho para o lugarejo de Labuga, na república Tártara, onde também não conseguiu emprego, nem de lavadora de pratos, como pedira, em carta de 26.08.1941, a um órgão da União dos Escritores Soviéticos. Sem mínimos recursos nem papel para escrever, acusada pelo filho das dificuldades financeiras em que viviam, sem notícias da filha, desesperada e em situação de fome extrema, em 31.08.1941 Marina Tsvetáieva cometeu suicídio – ou foi suicidada –, por enforcamento, com a corda que Bóris Pasternak lhe dera para fechar sua velha e surrada mala – “Forte, vai aguentar tudo, até se enforcar”, dissera ele –, quando se despediram, após o primeiro e último encontro, na partida de Tsvetáieva para Yelabuga. Ela deixou três cartas de adeus e um bilhete: “Não me enterrem viva: verifiquem bem!”.  O último poema que escreveu foi dedicado ao seu último amor, o poeta Arseny Tarkovski, que ela conheceu em 1939, quando retornou a Moscou. A relação amorosa durou pouco. Ao poema de Tarkovski, “A mesa, coloquei-a para seis”, referindo-se a ele mesmo, à esposa e familiares, Tsvetáieva respondeu, “possessa”, em março de 1941: “Refaço tudo o que me fez,/Tudo em um só verso poético:/– “Eu pus a mesa para seis”.../Tu esqueceste um – o sétimo.//Seis semblantes de tristeza./Como? Repete-me:/Como pudeste a esta mesa/Esquecer do sétimo – da sétima? (...)// Tu com os teus atrás da mesa –/Nem amigo, nem irmão, nem meu amado –/Que a puseste para seis, para mim mesma/ Não deixaste nem um só metro quadrado.” 

A extensa obra de Tsvetáieva, com dezenas de livros de poemas, peças de teatro e ensaios, além de centenas de cartas e páginas de diário, foi resgatada em grande parte pela filha Ariadna e “reabilitada” e divulgada a partir dos anos 1960, após o período de “degelo”, que se seguiu à morte de Joseph Stalin, em 1953. Como ela vaticinara, tinha chegado o tempo para sua poesia. Tornou-se conhecida e reconhecida como um dos ícones da “Era de Prata” da literatura russa moderna. No Brasil, seus poemas foram traduzidos pela primeira vez na antologia Poesia russa moderna, de Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman (Perspectiva, 1968), com outros poetas de sua geração: Blok, Pasternak, Akhmátova, Mandelstam, Iessiênin. Posteriormente, a professora, ensaísta e tradutora brasileira Aurora Bernardini se tornou uma das principais referências no estudo e na tradução de sua obra. Por meio dessas traduções, dos ensaios do filósofo russo Tzvetan Todorov e da correspondência da poeta que ele reuniu, tive a oportunidade de conhecer a língua de fogo de Marina Tsvetáieva: “a vida e a morte são os elementos do meu mundo poético”; “Dou ouvidos a algo que soa dentro de mim de maneira constante, mas não regular, dando-me ora indicações, ora ordens. Quando indica – discuto; quando ordena – obedeço”. E me deixei encarnar por sua poesia viva de “fogo que não é feito para o banho-maria”, como se ela, compreendendo-me intensamente, ordenasse-me dizer, com sua voz misturada à minha: “não me compreendam mal: eu não vivo para escrever versos, eu escrevo versos para viver”.

Maria Mortatti – 14.10.2023
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